As décadas se passam e o cheiro de pólvora ainda impregna o ar do Oriente Médio. A geopolítica estuda as relações entre os países, suas causas e consequências e, para entender essa teia de acontecimentos, temos que voltar em 1979, quando o governo iraniano do Xá Reza Pahlavi, aliado americano, sucumbiu à Revolução Fundamentalista Islâmica.
Naquele ano, considerado um divisor de águas na política externa iraniana, o Xá fugiu para os Estados Unidos e os revoltosos invadiram a embaixada americana em Teerã, mantendo 52 reféns por 444 dias. Estava formada nesse país islâmico, de maioria xiita, uma estrutura teocrática, com a figura do aiatolá como líder supremo; um conselho religioso guardião da Sharia (conjunto de leis islâmicas) e uma guarda revolucionária como segurança máxima desse modelo. O presidente, uma figura quase decorativa, eleito com o crivo do aiatolá, é subordinado aos poderes supracitados.
O tempo não foi capaz de diminuir as animosidades entre Estados Unidos e Irã, e o país do Oriente Médio se colocou de forma atuante a favor da causa palestina e contra o reconhecimento de Israel como Estado. Em diferentes momentos, como no governo de Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), o Irã afirmou abertamente que Israel deveria ser “varrido” do mapa.
Dentro do tabuleiro geopolítico, de constantes ameaças mútuas, na última década Teerã intensificou o financiamento ao Hamas na Faixa de Gaza e ao Hezbollah no sul do Líbano, ambos grupos terroristas que atuam contra Israel; ao mesmo tempo que consolidou a parceria com a Síria, até pouco tempo sob o regime de Bashar al-Assad, outra nação inimiga histórica de Israel.
Esse cerco, juntamente com a ampliação do programa nuclear iraniano, estava sobre a mesa quando Israel pressionava os Estados Unidos por apoio às ações militares mais contundentes contra o governo dos aiatolás. O problema é que os americanos vinham de duas ocupações malsucedidas que resultaram em enormes perdas econômicas e humanas: a do Afeganistão (2001-2021) e a do Iraque (2003-2011).
Tudo começa a mudar a partir do fatídico 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invade a fronteira sul de Israel e conduz inúmeros atentados sangrentos contra comunidades judaicas, vários com requintes de crueldade. A resposta de Israel foi forte e considerada desproporcional pela comunidade internacional: estima-se que mais 50 mil palestinos foram mortos em quase dois anos de bombardeios israelenses em Gaza. A base do Hamas foi destruída e os principais líderes mortos. Em outra frente, Israel atacava os redutos do Hezbollah no Líbano, causando enormes perdas ao grupo terrorista, mesmo ao custo de mortes de civis.
Bem perto do Líbano, em dezembro de 2024, depois de décadas, o regime da família Assad é deposto na Síria, e o novo governo golpista, considerado hostil pelo Irã, por enquanto não “comprou” a ideia de ser o eterno vizinho inimigo de Israel. Ou seja, com o Hamas e Hezbollah enfraquecidos e o governo sírio mais preocupado em se consolidar, o Irã perdeu parte do seu poder de fogo nas proximidades de Israel. Soma-se a isso o fato de a Rússia, única grande potência aliada, estar envolvida com a guerra da Ucrânia e impossibilitada de se envolver com qualquer tipo de apoio.
No ano passado, quando a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) divulgou que o enriquecimento de urânio do Irã beirava o nível de se produzir uma arma nuclear, Israel e Estados Unidos fizeram ataques pesados nas bases nucleares iranianas. Até então, Israel fazia ações cirúrgicas e secretas, comandadas pelo Mossad (serviço de inteligência israelense), executando pesquisadores de alto escalão do programa nuclear iraniano.
A atual situação geopolítica, de aparente fragilidade do Irã, foi fundamental para o convencimento do governo Trump, por parte de Israel, que esse seria o melhor momento para aniquilar o regime dos aiatolás. Os Estados Unidos compraram a proposta e, com Israel, estão fazendo, desde o final de fevereiro deste ano, ofensivas sem precedentes na região, atingindo alvos militares e civis, culminando na morte do líder supremo aiatolá Khamenei.
Até agora o Irã não demostra sinais de que irá recuar ou que o regime irá ruir, ao contrário, os constantes ataques à Israel e aos países do Golfo Pérsico aliados dos americanos, assim como a tentativa de impossibilitar o tráfego no Estreito de Ormuz, indicam a aposta iraniana em gerar o caos na produção de petróleo e consequentemente na economia global, talvez esperando um sinal americano para um possível acordo de manutenção do regime. A única certeza é que a nuvem de pólvora ainda paira sobre o Oriente Médio, construindo uma teia geopolítica latente na região mais conflituosa do globo.