Mais uma vez, fomos lá na Vila Rubim comprar ração numa loja para lá de tradicional de produtos para animais domésticos que cantam, falam, abanam o rabo, se enroscam e se movem lentamente.
Pode ser que alguém ache isso um despropósito, uma perda de tempo. Da minha parte, digo que se trata de uma espécie de viagem ao passado, tamanha a variedade de situações que por lá acontecem.
É lá que também compro vassoura de palha pro quintal, pomada poderosa pra dor muscular, queijo com gosto de curral, bala Itabira de côco queimado, frutas secas a granel, farinha grossa pra fazer farofa, bucha vegetal, cabo de enxada e muito mais.
Na peixaria, gosto de passear diante das bancas repletas de peixes inteiros, limpos e em postas, de camarões do mar e de cativeiro, de sururus do alto e do mangue, polvos fresquinhos, sardinhas e tudo o mais. Comprador fiel de duas bancas faz tempo, vou andando e fazendo caras de interessado, perguntando preços. Ao sair, sempre compro temperos que colorem a calçada do beco em frente. Outro dia comprei uma cana caiana que fez grande sucesso com os netos, que pouco praticam essa atividade de antigamente.
Desta vez, no lugar de enchovas, compramos uma pescada fresquinha, de uns 4 quilos, vinda lá de Marataízes. Enquanto acompanhava Beto tratar o peixe com a competência de sempre, me lembrei de uma foto que funciona como uma espécie de testemunha dos bons tempos.
Nela estão papai, de boina, e Chico, maratimba dos bons que sempre ia com ele pro mar. Com as melhores caras deste mundo, eles sustentam um remo enorme com umas 10 pescadas de uns 5 quilos, que haviam pegado, curricando a uns 200 metros da praia, na direção da Ponta do Siri.
Papai adorava pescar. Exatamente uma semana antes de morrer de apendicite na Santa Casa, na Vila Rubim, fui com ele a Marataízes para pescar nos baixios de pedra em alto mar, que os pescadores experientes localizavam com a ajuda de marcas que faziam, usando as montanhas como referências.
Aquela foi a minha primeira pescaria de fundo e dela guardo imagens de um homem todo prosa com os resultados: duas garoupas gordas, um olho de boi e uns tantos badejos criados.
Também me lembro de papai, agora esbaforido, tentando soltar o nó da linha que apertava meu dedo indicador, depois do arranco que um badejo deu ao se sentir fisgado. Chico havia me ensinado a amarrar a linha no banco do barco e, depois, fazer uma espécie de alça pra que ela pudesse correr, com alguma dificuldade, evitando que o nylon pocasse com um tranco mais forte.
Depois de escrever essas cenas, fui assistir aos noticiários da noite e, para meu espanto e tristeza, vi imagens de dezenas de deputados ocupando completamente a área destinada à mesa diretora do plenário da Câmara dos Deputados, a exemplo do que senadores faziam no Senado.
Aos berros e com gestos enérgicos e compassados, aqueles deputados gritavam palavras de ordem, exigindo a aprovação de anistia para quem tenha cometido crimes contra a democracia, previstos na Constituição.
Exaltados e convictos, eles me fizeram lembrar das cenas de aloprados e raivosos se mostrando vitoriosos e vingados ao ocuparem aquele mesmo lugar no dia 08 de janeiro de 2023. Dá pra supor que uns ajudaram a eleger os outros.
Hoje, andando cedo na praia fiquei tentando imaginar quem seria capaz de desatar essa espécie de nó cego.