Sou fluminense desde criancinha. Tenho um irmão vascaíno e três que torcem pro Flamengo. A turma daqui de casa é constituída de flamenguistas convictos e barulhentos, incluindo Yara, a neta caçula, que já foi três vezes ao Maracanã, com os pais, tios e primos. Manaira, a filha mais velha, está em fase de transição de tricolor pra rubronegro, sob meus protestos.
Devo dizer que ando meio afastado do mundo do futebol e que tenho tido decepções com nossa Seleção. Aquele 7 a 1 contra a Alemanha ainda está presente na memória e os últimos jogos a que assisti me fizeram pensar que já não somos os mesmos, talvez por razões para muito além do que sei e vejo.
As lembranças mais remotas que tenho de fatos futebolísticos aconteceram em Cachoeiro, na infância, quando ainda morávamos lá, e, já mais taludinho, durante as férias de julho que passávamos na terrinha, como conterrâneos gostam de dizer.
O primeiro deles foi uma partida entre o Estrela e o Botafogo, com o estádio lotado. O time carioca veio praticamente completo, em época que só o futebol do Rio de Janeiro era acompanhado por aqui. Os clubes paulistas, mineiros e gaúchos praticamente não tinham qualquer importância para os capixabas. O Santos de Pelé e Coutinho é que deve ter sido o primeiro a arranjar torcedores por aqui. Em campo, Garrincha fez miséria, para delírio dos torcedores, sobretudo para os do Cachoeiro Futebol Clube, incluindo papai.
Conhecido por sua fama de torcedor exaltado, lembro bem dos que passavam em frente da nossa casa na Rua 25 de Março, voltando do estádio lá na Baiminas. A depender do resultado do jogo, eles vinham bem-comportados ou gritando palavras de gozação e desacato ao Dr. Bolivar, homem muito respeitado e cachoeirense doente. Ele achava graça e esbravejava xingamentos do alto da varanda que dava pra rua.
O outro fato futebolístico sensacional e emocionante foi a final da Copa do Mundo de 1958, que ganhamos de 5 a 2 da Suécia, onde acontecia o certame. As imagens das películas, que só vimos depois, confirmam o banho de bola e o entusiasmo da torcida com o nosso time de futebol alegre de Nilton Santos, Didi, Garrincha, Vavá, Zagalo e Pelé, ainda bem novinho. Vale lembrar que isso aconteceu no dia 29 de Junho, dia de São Pedro, o padroeiro da cidade.
O rádio enorme foi colocado sobre a mesa, no canto da sala. Os torcedores mais velhos ficaram sentados nas cadeiras disponíveis ou de pé, encostados nas paredes. A garotada ficou no chão. Éramos muitos. Os locutores falavam alto e em tom emocionado, descrevendo a movimentação dos jogadores, emitindo juízo sobre as jogadas e falhas, reclamando do juiz e dos bandeirinhas. Depois de relatar com palavras discretas os gols do adversário, quase foram ao delírio com os nossos, em sequência.
Nossa comemoração foi verdadeiramente emocionante, com o pessoal aos berros e abraços. A garotada foi pro meio da rua, calçada de paralelepípedos, jogar futebol com bola de pano.
Agora, homem já bem maduro, assisti na TV a alguns jogos desse campeonato riquíssimo da FIFA. É tanto dinheiro que os clubes ganham, que os perdedores nem reclamam. Mesmo tendo apresentado futebol sem brilho, perdido partidas e sido eliminados, levaram pra casa dólares em grandes quantidades. Meu Fluminense, pra se ter uma ideia, ganhou R$ 366 milhões por ter chegado às quartas de final e perdido a partida. Melhor do que isso: ganhou palmas de milhares de brasileiros torcedores de todos os times.
Da minha parte, sou levado a considerar que foi um feito para muito além das minhas expectativas e, com certeza, me proporcionou condições para conviver amistosamente com os flamenguistas da família. Pra finalizar este depoimento, é de todo oportuno lembrar que fomos derrotados por um tricolor de coração, criado nas nossas dependências, ao lado de gente amiga e incentivadora.
Para engrossar as emoções da semana, estou acompanhando as repercussões da decisão intempestiva e prepotente do presidente Trump de taxar em 50% todas as exportações brasileiras, o que deverá funcionar como uma espécie de gol contra do time de seus seguidores nacionais.