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Crônica

Urubus e galos de briga: uma volta na Praia da Esquerda da Ilha do Boi

Metido num calção de banho surrado, usando camiseta velha e chapéu de pano de aba larga, fui levando um pedaço jeitoso de bambu, além do canivete gaúcho, afiadíssimo, que ganhei de meu amigo Ennio Candotti

Públicado em 

19 set 2025 às 03:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Nesta última quarta-feira, pratiquei a minha rotina matinal de andar na areia da Praia da Esquerda, na Ilha do Boi, em busca de saúde e, desta vez, de assunto pra crônica.
Metido num calção de banho surrado, usando camiseta velha e chapéu de pano de aba larga, fui levando um pedaço jeitoso de bambu, além do canivete gaúcho, afiadíssimo, que ganhei de meu amigo Ennio Candotti.
Como já passava das 8h50, a turma animada que se encontra ali pra fazer exercícios e dar muitas braçadas já tinha ido embora, deixando a praia quase deserta. Apenas um gari fazia o serviço de varrição, se é que assim pode ser dito, da areia da praia.
A maré estava bem vazia e o mar encrespado, com ondas gordas. O vento nordeste já soprava forte e a água estava bem feia.
Para a minha surpresa, a faixa de areia estava completamente modificada, muito larga, como nunca tinha visto, desde 1987, quando vim de volta pra Vitória, trazendo família numerosa.
Por obra e graça do mar revolto dos últimos dias e do fim do desfolhamento das castanheiras, a areia estava praticamente limpa, a menos de uma tartaruga morta, com o casco rompido por pancada de lancha ou jet ski, que o mar acabara de trazer. Digo isso, com certeza, porque os urubus de sempre ainda não tinham percebido a sua existência.
As pedras do canto direito, do lado leste da praia, estavam praticamente cobertas de areia, inclusive aquelas que oferecem sururus graúdos, para serem colhidos com facilidade quando a maré está baixa e sem ondas. Uma novidade pra mim, mas que Carol sempre diz que já tinha visto daquele jeito.
Praia da Esquerda, na Ilha do Boi
Praia da Esquerda, na Ilha do Boi Crédito: Alvaro Abreu
A ponta da praia do lado oeste também estava totalmente diferente da sua configuração de sempre. A começar pelas dimensões da faixa clara que existe na parte inferior daquela formação rochosa, que tenho na conta de um testemunho da sua condição original.
Praia da Esquerda, na Ilha do Boi
Praia da Esquerda, na Ilha do Boi Crédito: Alvaro Abreu
Totalmente limpa, ela contrasta com a cor bem escura da parte superior da pedra, que sempre esteve exposta, durante décadas, à sujeira saída das chaminés e das pilhas de minério que foram surgindo na Ponta do Tubarão.
Naquele dia a faixa estava com mais de 2 metros de largura e uns 20 metros de comprimento, resultado da ação do mar bravio, que foi retirando grandes quantidades de areia, a ponto de criar um simpático paredão de mais de metro de altura, no início da praia.
Quando vim andando de volta, me deparei com a cena corriqueira de uns cinco urubus disputando o que restava da tartaruga e, também, mais adiante, com a peleja de dois urubus disputando uma pequena carniça.
Como eles continuavam brigando, achei por bem parar pra assistir de longe àquela disputa ferrenha, a base de bicadas fortes e golpes com as pernas, exatamente como faziam os galos de briga, nos terreiros e nas rinhas que Jânio Quadros proibiu para sempre.
Aquela cena me fez lembrar que meu irmão Afonso ganhou, numa das nossas idas a Cachoeiro, uma galinha gorda e um galo de briga batizado de General, já aposentado. Ele diz que foi presente de um famoso criador de galos de briga e grande amigo do vovô Fernando.
Afonso tem uma espécie rara de orgulho em dizer que a dinastia do General se estabeleceu em Vitória e adjacências, a partir da doação que fez do patriarca e de seus descendentes para amigos seus, incluindo o nosso carteiro, que descansava do serviço tocando violão na varanda lá de casa.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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