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Crônica

Viagem a São Paulo

Confirmei mais uma vez que não vejo nenhum conhecido entre os passageiros que desembarcam e os que vão embarcar; até poucos anos atrás, o saguão do aeroporto era ponto de reencontros

Públicado em 

03 out 2025 às 03:30
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Quem tem muitos filhos e muitos netos morando longe tem bons motivos para viajar. Neste final de setembro fomos a São Paulo para os aniversários de Bebel, minha filha do meio, e o do meu neto Antônio, conhecido por TomTom, dono de chutes poderosos e certeiros.
Esperando a hora do embarque, confirmei mais uma vez que não vejo nenhum conhecido entre os passageiros que desembarcam e os que vão embarcar. Até poucos anos atrás, o saguão do aeroporto era ponto de reencontros, comuns nas cidades pequenas. Vitória já está com jeito de metrópole.
Tudo o que você precisa saber antes de viajar
Mala de viagem: "Viemos trazendo duas malas cheias de livros" Crédito: Shutterstock
Gosto de viajar ao lado da janela para ir vendo o mundo do alto. Pois desta vez, nada pude ver, pois o avião navegou, de ponta a ponta, em meio a uma camada de nuvem que estimei ter mais de uns 4 mil metros de espessura, o que eu jamais havia visto.
A bordo, senti uma pequena fisgada na garganta, anunciando a chegada de uma gripe, embora tivesse me vacinado no começo do mês. Para encurtar a conversa, passei três dias de molho, debaixo de cobertas, com nariz escorrendo e tossindo bastante. Perdi as comemorações da filha e fui um avô borocochô nos festejos do moleque, ao lado de 30 crianças barulhentas e 20 adultos animados.
Na terça, cedinho, tomamos o caminho de casa. Viemos trazendo duas malas cheias de livros da Bebel Books para serem oferecidos na primeira edição da Festa Literária Internacional Capixaba (Flic), em meados de outubro.
Animadíssima, Bebel vai trazer os primeiros exemplares do cordel que escreveu e ilustrou com xilogravuras, sobre uma viagem a Belém. Manaira, por sua vez, orgulhosa que só, deverá trazer, no colo, exemplares de uma simpática publicação, que está editando, com versos e desenhos que Carol fez para homenagear as Paneleiras de Goiabeiras.
Como nem tudo são flores, passei um perrengue ao enfrentar o serviço de segurança do aeroporto, como muita gente já deve ter passado. A revista dos passageiros, que começou com um processo bem básico, com a ajuda de um detector manual de metais, vem sendo ampliada e sofisticada a cada tempo.
Confesso que tenho implicância antiga com aquele aparato na forma de esteira, caixas, conferência eletrônica de malas, bolsas, bagagens, roupas e acessórios. Funcionários formais e educados orientam os passageiros a se livrarem de tudo o que não seja a roupa do corpo, incluindo toda e qualquer espécie de casaco, inclusive chapéu panamá.
Já presenciei senhoras tendo que tirar sandálias dotadas de fivelinhas e adereços para conseguir atravessar o detector que apita e acende, constrangendo muita gente. Já vi de tudo, como se diz, nesses ambientes.
As pessoas com próteses, marcapassos e afins são criaturas suspeitas por excelência e são obrigadas a se submeter aos rigores das normas e das leis que foram criadas após o 11 de setembro. Sempre sob grandes constrangimentos, inclusive dos funcionários.
Pois desta vez, ainda que totalmente livre de tudo que carrego nos bolsos e na minha velha pochete de guerra, fui selecionado por critério, possivelmente impessoal, a me submeter a uma revista completa.
Obediente, mas achando ridículo e sob protestos, fui orientado por um funcionário gordinho a tirar meu velho sapato de couro e sola de borracha, a não tocar nos meus objetos sobre a esteira e a pisar em cima de duas marcas no chão, me obrigando a ficar com as pernas afastadas.
Sob o olhar de muitos e sempre protestando, acompanhei o funcionário calçando luvas de plástico, lentamente, talvez para expressar algum tipo de cuidado e de poder misterioso. Em seguida, sempre reclamando e olhando nos olhos do opositor, fui recebendo instruções, do tipo: abra os braços, vire de lado, levante uma perna, agora a outra, e assim por diante.
Aí começou a parte mais incômoda do processo: o rapaz resolveu passar as suas mãos nas partes tocáveis do meu corpo. Perguntei se ele estava gostando, mas não tive resposta.
Em seguida, para não deixar qualquer dúvida de sua suspeição profissional sobre a minha pessoa, recebi ordens de levantar as bocas da calça para que minhas canelas fossem revistadas.
Como se não bastasse, o poderoso gordinho, sempre ouvindo minhas educadas intempéries, pediu delicada e firmemente que eu apoiasse as mãos no balcão e dobrasse minhas canelas para trás para que ele pudesse revistar as solas dos meus pés. Achei aquilo ridículo e protestei com convicção.
Saí dali, torcendo para que o tal revistador tenha aceito as minhas considerações e tenha resolvido começar a procurar uma outra ocupação menos constrangedora de pessoas idosas e perfeitamente inocentes.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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