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Crônica

Viva Seu Natal e sua oficina em Santa Lúcia

Na falta de vaga pra estacionar, pedi que Carol fosse lá apanhar o liquidificador e acertar as contas. Ao entrar no carro ela foi dizendo que Seu Natal não quis cobrar pelo serviço, falando: “Essa ele vai ficar me devendo”

Públicado em 

03 abr 2026 às 03:15
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Nosso liquidificador parou de funcionar, impossibilitando alguns serviços básicos na cozinha, incluindo fazer suco de maracujá e bater receitas de pudim. Emperrou completamente, talvez por falta de uso e ação da maresia trazida pelo vento nordeste.
É bem verdade que ele é bem velhinho. Foi comprado no início dos anos 1970, quando montamos casa lá em Brasília, logo depois de casarmos, em festa animada ao som de “Preta pretinha”, lá em Itaipava, no Estado do Rio. É do modelo bem básico: velocidade única, copo de plástico, barulhento que só.
Durante o almoço, sem suco, Rafael, nosso primogênito que está montando apartamento, se ofereceu para comprar um novo pela internet.
Agradeci dizendo que iria levar o nosso pra Seu Natal dar jeito. Minha expectativa tinha fundamento: ele já tinha consertado muita coisa na vida, inclusive nosso querido micro-ondas, daqueles bem grandes, com porta transparente. Foi dos primeiros que apareceram por aqui, trazido de Manaus, por um casal de amigos que se mudou pra Miami nos idos de 1990.
Pois Seu Natal ficou animado quando cheguei, há uns 5 anos, com aquele trambolho, na sua oficina, em Santa Lúcia, bem defronte do último e único campo de futebol da parte norte da ilha, que agora é só quase estacionamento.
Percebi que ele entendeu que se tratava de mais um desafio dos que gostava de enfrentar com sua vasta experiência. Curioso, tratou de tirar a carcaça pra poder averiguar o defeito.
Rápido e atento, desaparafusou rapidamente a placa de circuito e declarou em bom som que ela havia “queimado” e, mais, que teria que ir ao Centro pra ver se conseguia encontrar uma igual.
Dias depois, quando voltei lá, ele me recebeu com cara de vitorioso, dizendo que eu era um homem de sorte. Ele havia comprado as últimas duas placas que existiam na cidade, numa loja de gente conhecida.
Voltei pra casa com meu micro-ondas funcionando e com uma placa de reserva, que anos depois eu mesmo tratei de instalar, tão logo a outra queimou.
Desta vez, o perrengue era bem mais simples. Enquanto ele ia tirando a capa, fiquei conferindo a montanha de parafusos, de todos os tipos, que estavam na bancada. Aquilo era a prova cabal do tanto que aquele homem, de pouquíssimas palavras, já tinha consertado durante a vida. A oficina tinha o piso cheio de bagulhos e prateleiras repletas de peças, motores e eletrodomésticos usados.
Experiente, lançou jatos de WD pra diluir a ferrugem e tentou fazer girar o motor, sem sucesso. Com a maior segurança, de dar gosto de ver, encaixou o eixo do liquidificador no mandril da sua poderosa furadeira e acionou o gatilho.
Deu bom, como se diz, mas, ao testar, ele não gostou de ver fagulhas voando dentro do motor. Tirou tudo das tomadas e foi atender um cliente que acabara de chegar, trazendo mais serviço.
Prometi que passaria lá depois. Dito e feito. Na falta de vaga pra estacionar, pedi que Carol fosse lá apanhar o liquidificador e acertar as contas. Ao entrar no carro ela foi dizendo que Seu Natal não quis cobrar pelo serviço, falando: “Essa ele vai ficar me devendo”.
Confesso que me emocionei com aquela declaração, prova cabal de que resta espaço para trocas de gentileza entre pessoas de pouco convívio.
Da próxima vez que eu for lá, vou perguntar se ele conheceu o Seu Edson, pai do meu cunhado Astrogildo, que morava na esquina oposta, na Avenida Rio Branco, que produzia, instalava e consertava grandes equipamentos de ar condicionado e congeladores, inclusive em fábricas e grandes lojas.
Tratei de dar uma limpeza caprichada no liquidificador e achei por bem fazer, com um pedaço de bambu com nó, uma peça para encaixar no buraco da tampa, o que deu um certo charme ao conjunto.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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