No domingo passado, com a ajuda estratégica do meu genro Nélio, compramos as passagens para a ilha Terceira, nos Açores, onde acontecerá uma exposição de pinturas e de colheres de bambu.
Vou com Carol conhecer os Açores, lugar que está na pauta faz muito tempo. Pra ser exato, desde quando recebi uma mensagem de uma portuguesa recém-formada em veterinária, lá nos idos de 2002. Ela se mostrou interessada em saber mais sobre as colheres de bambu que gosto de fazer.
Percebi, logo no começo da troca de e-mails, que ela tinha visitado o site que meu pessoal havia criado pra mim, onde deve ter encontrado informações que atiçaram sua curiosidade.
Sissi, como gosto de tratá-la, revelou-se uma pessoa extremamente reservada, tanto que sugeriu que tentasse identificá-la numa foto onde estão umas 30 moças alegres, vestidas de roupa de formatura. Achei curioso e tratei de respeitar a sua precaução, tanto que só fui conhecer seu rosto alguns anos depois, numa foto em que ela aparece encostada numa camionete já bem surrada, ao lado de outras pessoas sorridentes.
Ao longo do tempo, fui conhecendo seus gatos, cachorros e galinhas, suas hortas e jardins, além de alguns cômodos da casa. Pode parecer mentira deslavada, mas digo aqui que recebi de presente de aniversário um potinho revestido de uma palha chamada de corriola, repleto de uma geleia feita com frutinhas ácidas que ela colheu nos altos do Pico. Como não bastasse, vieram também dois queijos deliciosos, que comi com a maior parcimônia.
O curioso é que só fui conseguir conhecer suas feições, em fotos tiradas ao lado de um casal de amigos velejadores que, por sugestão minha, aportaram nos Açores após atravessarem o Atlântico, uns cinco anos atrás. Em 2024, uma prima de Carol, que viaja pelo mundo com o marido, esteve na casa dela na Ilha Terceira e nos mandou duas fotografias com a anfitriã e seu esposo.
Há uns poucos anos, determinada que só, ela resolveu começar a pintar, tendo recebido meus estímulos na forma de comentários sinceros e favoráveis.
Como era de se esperar, seus quadros foram surgindo em ritmo intenso, sempre com formas instigantes, fundadas em emoções fortes, tiradas do fundo da alma. Todos os que conheço trazem imagens enigmáticas, que produzem estranhamentos que fazem pensar.
Depois de conhecer o livro que escrevi durante a pandemia, sobre fazer colheres de bambu, ela, irrequieta e determinada, resolveu escrever e publicar um livro sobre suas pinturas, seus pensamentos e suas relações com parentes e amigos. Nele, apareço aos leitores como alguém que contribuiu à distância para a evolução do seu trabalho com pincéis e telas, sempre tratado como “meu amigo além-mar”.
Mais do que isso, escreveu que gostaria de fazer uma exposição de seus quadros e das minhas colheres no dia 28 de novembro de 2025, dia em que completará 50 anos de idade. Recentemente ela confirmou o convite e informou que a exposição será realizada no Centro Cultural e de Eventos de Angra do Heroísmo e vai durar 2 meses.
Como a vida vai dando voltas, na segunda-feira passada reencontramos um casal de vizinhos no estacionamento do supermercado e a nossa ida aos Açores entrou na conversa. A surpresa boa foi saber que ele, Marcos Moulin, está capitaneando um projeto experimental de plantio de diferentes espécies de café capixaba na Ilha Terceira.
Animado com a coincidência, ele contou que atuou durante mais de 20 anos no CETECAF - Centro de Tecnologia do Café - que ajudei a criar naqueles idos de 2002, e ao qual atribuo o grande salto de qualidade dos nossos cafés.
Para aproveitar, vamos conhecer Braga, de onde meu bisavô saiu para vir morar no Brasil e de onde surgiu nosso sobrenome. De quebra, soube que é naquela mesma região que vive a família da Sissi.