Tem dias em que a gente só precisa voltar para casa. Uma casa feita não de paredes, mas de raízes; não de móveis, mas de descanso, potência e reencontro; não de porta, janelas e estantes, mas de caminhos, perspectivas e novos jeitos de olhar velhas coisas.
A casa que vai dentro guarda a essência do que éramos quando estávamos inteiros.
Nela pode até haver um ou outro conserto a ser feito, um fio desencapado, um equipamento à espera de manutenção, um utensílio tão quebrado quanto esquecido, um baú dominado por papéis e memórias de uma vida inteira.
Mas o que mais importa é de outra ordem.
Voltar para casa significa reconhecer o ritmo que nos habita e quem sabe desacelerar um pouco. Significa respirar profundo, recuperar o que ficou pelo caminho, separar o essencial do que sobra, sorrir de novo com o espírito e não apenas com os dentes.
Voltar para casa diz a respeito a se reintegrar a si mesmo, reocupar o próprio corpo, deixar o exílio típico de quem vive no piloto automático, partir em busca do sol.
É um movimento que nos salva, especialmente nas temporadas de desalinho e caos, excessos ou sumiços, falta de filtro ou ausência de inspiração, pavio curto ou completa indiferença, mão perdida, atalhos longos, dívidas reais e metafísicas, arrependimentos, insistências que deviam ser desistências, mares pouco gentis.
Há muitas formas de voltar para casa.
A gente simplesmente sabe. Quando chega a hora é hora. Não importa o dia da semana, a hora, a roupa, se estiou ou ainda chove. Começa pequeno, quase sempre: um livro, uma canção, uma caminhada ao ar livre, uma tarde sem objetivo definido, um encontro com um velho amigo, a unha pintada de Tapete Vermelho ou Tomate, uma receita que deu certo, a cozinha limpa, o peso simbólico de uma gaveta arrumada.
Voltar para casa é lembrar que a vida melhora quando a gente tem vida própria, a despeito do que falta, dos julgamentos alheios e das expectativas desfeitas. Voltar para casa é não se abandonar.