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Crônica

Museu dos Fracassos Pessoais é um monumento às coisas que passam

No fim das contas, o museu não celebra o fracasso em si, mas o fato de que um joelho ralado, um dinheiro perdido, um coração partido, um desejo interrompido inspiram a coragem de tentar de novo

Públicado em 

22 mar 2026 às 04:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Sabe aquele afago que cai como uma luva num dia difícil? Pode ser um abraço com tudo dentro, uma canção em tom maior, a companhia do gato, a mensagem ligeira de uma amiga querida que andou sumida e você também. Pode ser uma vitoriazinha de nada, uma gaveta escondida que você enfim começou a organizar, uma noite de comida feita e louça lavada, uma frase que parece escrita sob medida para você.
Às vezes o afago é a lembrança vaga de uma queda, a nos dizer que as dores passam, que o tempo cura, que o jogo vira, que no fundo do poço tem uma mola.
Não conheço Eyvan Collins, mas, ao que tudo indica, ele pegou o espírito da coisa. Segundo consta, o caminhoneiro e artista canadense de 30 e poucos anos andava triste e derrotado depois de dois finais de relacionamento seguidos. Para distrair a frustração e inspirado no Museu de Relacionamentos Rompidos, na Croácia, onde ex-casais depositam objetos de ex-amores, Collins resolveu espalhar cartazes onde se lia:
- Procura-se fracassos.
Muita gente atendeu ao chamado, enviando cartas de rejeição, projetos que ficaram no caminho, uma planta que morreu por descuido ou má sorte, o vestido de noiva de um casamento falido. Collins, então, alugou uma sala em um shopping de Vancouver e transformou a dor de um pé vocês sabem onde no Museu dos Fracassos Pessoais.
Obra no Museu dos Fracassos Pessoais, em Vancouver
Obra no Museu dos Fracassos Pessoais, em Vancouver Crédito: Reprodução
Sua ideia era ressignificar experiências dolorosas, tornar a palavra fracasso menos absoluta, apresentar objetos antes associados a fiascos em um monumento à tentativa, uma homenagem ao tempo e esforço dedicados a um propósito, qualquer um.
Deu certo.
No fim das contas, o museu não celebra o fracasso em si, mas o fato de que um joelho ralado, um dinheiro perdido, um coração partido, um desejo interrompido inspiram a coragem de tentar de novo. Num mundo obcecado por exemplos de sucesso e por fórmulas que prometem a melhor versão de nós mesmos, é um alento saber dele.
Como as melhores histórias, o Museu dos Fracassos Pessoais universaliza ruínas particulares, reforçando que às vezes a vida sai do eixo mesmo, a minha, a sua, a de Eyvan Collins, a de todos nós.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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