De um modo geral, tenho um apreço a mais pelo significado simbólico das coisas. Não o conceito escancarado das enciclopédias, dicionários e livros de História, mas o sentido que vai dentro, que se esconde do primeiro olhar, que se abre às viagens pouco convencionais de um coração livre.
Do outono, por exemplo, que começou há pouco, me interessa menos a redução gradual das temperaturas e mais a promessa de reconexão revigoramentos; menos o amarelo seco das folhas que caem e mais o impulso para recomeçar, recuperar a força que ficou pelo caminho.
Seus dias progressivamente mais curtos, noites cada vez mais longas e temperaturas um pouco mais amenas me inspiram a alimentar bases nem sempre aparentes que sustentam todo o resto, traçar novas rotas e celebrar a potência do tempo.
Na Páscoa tenho sensação parecida. Me fascina menos a vitória sobre a morte ou o pecado e mais o poético da travessia; menos o sacrifício que liberta e mais a chance de passar por cima do que pesa, menos a liturgia e mais a fé nos renascimentos, na superação das dores e no fato de que o novo sempre vem, exatamente como na canção.
[Das coisas que aprendi nos discos].
Sei não, mas, para além do que determinam as religiões, tenho a impressão de que Páscoa, no seu sentido mais fundo, guarda esse quê de passagem para cenas mais amenas, de libertação do que asfixia, da caminhada que tentamos construir, de domingo a domingo, rumo a dias melhores.