Se eu pudesse, entrevistava Raduan Nassar. Podia ser pela passagem de seus 90 anos estes dias ou pelos rumos políticos do país que ele de algum modo previu e desejou.
Podia ser sobre a fazenda que doou ao público nas proximidades da minha terra natal ou as semelhanças que talvez ele veja entre a agricultura e as palavras.
Podia ser sobre tudo, sobre qualquer coisa, mas também sobre o silêncio.
Falaríamos quem sabe de quando ele se deu conta de que gostava de palavras e queria mexer com elas, não só com a casca, mas com a geminação, os sons, as grafias, as sintaxes, a pontuação e o ritmo. Das leituras de autores que ele diz não se lembrar mais e do Livrão com maiúscula que todos temos diante dos olhos — a vida. Das frases e parágrafos longos, nos quais Raduan brilha e de onde eu tento escapar.
[Com frequência, falho miseravelmente].
Cedo ou tarde, a conversa esbarraria na camaradagem que ele defende com o Anjo do Mal como pressuposto da nossa suposta liberdade, as raízes libanesas que partilhamos, a volta do filho pródigo, a lavoura arcaica e aquela frase boa de doer:
— Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo.
Se eu entrevistasse Raduan Nassar, apesar da curiosidade que ronda o tema, é possível que eu fugisse da pergunta mais óbvia de todas, sobre os motivos que o levaram a parar de escrever em meados dos anos 1980, 300 páginas e dois celebrados romances depois de começar.
Gostaria, ao contrário, de falar de modo mais amplo sobre o que move as desistências, os abandonos, as fugas e as partidas. Qual a hora certa de botar um fim na dança? De quantos passos atravessados você precisa para saber que chegou a hora?
Certas partidas não admitem explicação. O próprio gesto diz tudo e torna o resto pouco relevante. Ainda assim, se eu pudesse, entrevistava Raduan Nassar. Quem sabe falaríamos de plantios e colheitas, abandonos e permanências, política e afetos, repertório e o livro da vida, o mundo que só se une se desunindo e o silêncio.