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Crônica

Se eu pudesse, entrevistava Raduan Nassar sobre tudo e o silêncio

Escritor que completou 90 anos nesta semana falou pouquíssimo na vida: raras entrevistas e a decisão de se recolher quando muita gente ainda queria ouvi-lo

Públicado em 

30 nov 2025 às 04:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Se eu pudesse, entrevistava Raduan Nassar. Podia ser pela passagem de seus 90 anos estes dias ou pelos rumos políticos do país que ele de algum modo previu e desejou.
Podia ser sobre a fazenda que doou ao público nas proximidades da minha terra natal ou as semelhanças que talvez ele veja entre a agricultura e as palavras.
Podia ser sobre tudo, sobre qualquer coisa, mas também sobre o silêncio.
Escritor
O escritor Raduan Nassar Crédito: Eduardo Knapp/Folhapress
Falaríamos quem sabe de quando ele se deu conta de que gostava de palavras e queria mexer com elas, não só com a casca, mas com a geminação, os sons, as grafias, as sintaxes, a pontuação e o ritmo. Das leituras de autores que ele diz não se lembrar mais e do Livrão com maiúscula que todos temos diante dos olhos — a vida. Das frases e parágrafos longos, nos quais Raduan brilha e de onde eu tento escapar.
[Com frequência, falho miseravelmente].
Cedo ou tarde, a conversa esbarraria na camaradagem que ele defende com o Anjo do Mal como pressuposto da nossa suposta liberdade, as raízes libanesas que partilhamos, a volta do filho pródigo, a lavoura arcaica e aquela frase boa de doer:
— Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo.
Se eu entrevistasse Raduan Nassar, apesar da curiosidade que ronda o tema, é possível que eu fugisse da pergunta mais óbvia de todas, sobre os motivos que o levaram a parar de escrever em meados dos anos 1980, 300 páginas e dois celebrados romances depois de começar.
Gostaria, ao contrário, de falar de modo mais amplo sobre o que move as desistências, os abandonos, as fugas e as partidas. Qual a hora certa de botar um fim na dança? De quantos passos atravessados você precisa para saber que chegou a hora?
Certas partidas não admitem explicação. O próprio gesto diz tudo e torna o resto pouco relevante. Ainda assim, se eu pudesse, entrevistava Raduan Nassar. Quem sabe falaríamos de plantios e colheitas, abandonos e permanências, política e afetos, repertório e o livro da vida, o mundo que só se une se desunindo e o silêncio.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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