Há músicas que não ouvimos. Elas nos habitam. Chegaram num dia qualquer e ficaram, como um amor à primeira vista que gosta de permanecer. Djavan é assim. Não me lembro quando descobri suas músicas. Parece que elas sempre estiveram em mim, em algum canto da minha memória afetiva. Eu amo amar Djavan.
Também não sei se aquele garoto de Maceió, ao entrar pela primeira vez no estúdio com seu violão, imaginava que estava inaugurando a trilha sonora de gerações inteiras. E agora vem ele, cinquenta anos depois, convocar nossas lembranças de corações partidos, beijos inesquecíveis, paixões avassaladoras para uma nova turnê. Djavan nos embobece. Sorrimos ao primeiro acorde. Nada pode ser mais delicioso que isso.
Ele dobrou a língua brasileira, brincou com ela, a distendeu, colocou sílabas onde não cabiam, fez onomatopeias como bolhas de sabão. Me valendo de uma expressão do poeta Manoel de Barros, Djavan criança o coração da gente. Porque a melodia tem uma lógica própria que o dicionário não alcança. "Flor de Lis" não é uma música. É uma cena que acontece dentro do peito de quem ouve. Uma mulher, um homem, uma varanda, o fim de algo que ainda não acabou. Djavan sempre soube que o amor vive nas beiradas. Não no centro. Na beira.
Ninguém é mais o mesmo depois de ouvir alguém cantando “você deságua em mim, eu oceano.” Djavan sempre nomeou os sentimentos grandes com outras palavras, expandiu sinônimos. Há uma crueldade suave nessa habilidade de fazer do ouvinte personagem sem pedir licença. Você escuta "Samurai" e algo muda de lugar no seu íntimo, um móvel que você não sabia que estava torto se endireita ou cai.
A música que diz o amor diz também a sua ausência, no mesmo tom. "Sina" fala de destino, pura filosofia. "Eu Te Devoro" é desejo que não pede desculpa. "Nem Um Dia" é o tipo de frase que você nunca deveria dizer para alguém se não quiser que ela fique. Djavan sabia. E disse assim mesmo.
Até entrevista de Djavan é poesia. Ele disse uma vez que antes de escrever já usava a voz como instrumento. Que o improviso é um voo comprometido com a harmonia, e que nesse espaço entre a liberdade e o limite mora a criação. Talvez o amor também funcione assim. Existe em uma harmonia que você não escolheu completamente, e a graça é improvisar dentro dela sem cair.
Cinquenta anos de canção. Mais de vinte álbuns. Um Grammy. Stevie Wonder, Caetano, Bethânia, quanta história esse menino de Maceió fez e fará.
Não sei o que acontece quando uma música muda tudo. Sei que acontece. Sei que há pessoas que se encontraram num show de Djavan e ainda estão juntas. "Um Amor Puro" tocando ao fundo já dissolveu mágoas bobas e juntou corpos trêmulos.
A força da música não é fazer você sentir algo novo. É fazer você sentir o que você já sentia e não tinha palavras. Djavan passou cinquenta anos nos devolvendo a nós mesmos. Em notas. Em silêncio entre notas. Em versos que chegam e não pedem para ficar, mas ficam. Como as melhores histórias de amor. Djavan é permanência doce na nossa memória. Por ser amor, invade e fim.