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Sextas Crônicas

Olha a cobra! É mentira

Toda mentira traz alguma verdade sobre quem mente. Toda verdade traz também algo de ilusão na interpretação da própria subjetividade

Públicado em 

23 jan 2026 às 03:30
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Não lido bem com mentiras. Nunca lidei. Acho exaustivo ter que verificar falas, fatos e atos. Também não gosto de juramento. Quis o destino que eu me apaixonasse pelo jornalismo e que fosse escolhida como juramentista da minha turma de faculdade. Haja terapia. O juramento fala, resumindo muito, sobre o compromisso com a verdade, sobre não omitir, não mentir e não distorcer informações, não manipular dados e não subordinar em favor de interesses pessoais o direito à informação verdadeira.
Pronto, foi aí que me comprometi de vez com a busca da verdade, mesmo as mais incômodas, mesmo aquelas que dão uma trabalheira insana para serem apuradas. Ou, no âmbito pessoal, aquelas dolorosas, que ficariam melhor escondidas. Aquelas indesejáveis que fazem com que usemos todos os nossos artifícios para cegar os olhos da percepção.
Das delícias que a vida apresenta, uma das que mais gosto é conversar com amigos sobre comportamento humano. A filosofia do bar, a sociologia da roda de conversa, a antropologia da rua, fora dos confinamentos, me seduzem. Dia desses, o papo resvalou em saúde mental e foi parar em mentira. Melhor dizendo, na banalização da mentira e no caos que isso provoca nas relações de todas as naturezas. Se o espírito do tempo é o da insegurança, fica fácil entender a epidemia de ansiedade que assola o mundo e a busca crescente por espaços seguros, onde a confiança tem valor inestimável.
Mentira é um conceito complexo e uma opção de comportamento até estimulada dentro do pacote civilizatório que nos envolve. Mentirinhas como atos de polidez, por exemplo, são aceitas de bom grado. Afinal, quem quer verdades indesejadas e, quase sempre, não solicitadas sobre irrelevâncias ou escolhas pessoais? É um código de boa convivência responder com um sorriso amarelo de omissão ou um elogio protocolar a essas questões. Na verdade, quem pergunta não quer ouvir “A” verdade e quem não pergunta não nos chamou para o assunto. Elegância é sempre cuidar dos nossos próprios botões.
Ser sincero pode ter um custo para a harmonia nas relações. Mentir também. Verdades e mentiras nos formam como sujeitos e refletem nossa relação com a palavra e a linguagem. Nesse ponto, ambas são inseparáveis. Toda mentira traz alguma verdade sobre quem mente. Toda verdade traz também algo de ilusão na interpretação da própria subjetividade. A verdade que se alcança tem algo de fictício, nunca é completa. Sabê-la assim, incompleta, pode evitar cair na armadilha de ser dono ou escravo dela.
Os motivos para alguém mentir e sustentar uma mentira podem ser diversos. Freud explica e complica, como sempre, porque, sem complexidade de reflexão, passamos a vida com a água nas canelas, não mergulhamos no viver, esse mar aberto da existência. Sem mergulho no profundo do que somos, “morremos de sede em frente ao mar”.
Razões para mentir são tão variadas quanto a tipologia de mentirosos. Existem pessoas que mentem para prejudicar os outros, pelo prazer do engano, por patologia ou estratégia para colher benefícios ao enganar. A mentira não é exclusividade de pessoas más. Mentimos para obter atenção, por insegurança, reconhecimento, ciúmes, vergonha, inveja, medo ou baixa autoestima. Sim, mentimos todos.
Mas deixemos em paz os mentirosos amadores e vamos aos profissionais da mentira. Aqueles que a Psiquiatria chama de mitômanos, os mentirosos compulsivos. Aquele que se vê como vítima ou herói de suas invenções, o mentiroso recorrente, que escolheu a mentira como arranjo de vida. Aquela pessoa que usa a mentira para interagir com os outros. Que só existe na mentira. Que, na ilusão de superar problemas narcísicos e as dores do viver, recorre ao ridículo do ilusionismo permanente para criar uma rede de enganos, na qual ela própria está presa.
mentira
Pinóquio ficou famoso por mentir e ver o nariz crescendo Crédito: Pexels
Pior que a mentira são os mentirosos ressentidos, que sempre culpam o outro por suas trapaças. Eles partem do pressuposto de que os outros lhes devem algo? Além de não assumirem suas responsabilidades, aparentam viver em uma realidade estranha que deve ser constantemente disfarçada.
O mentiroso amargo utiliza a mentira para se relacionar com os outros. Só conhece essa via de existir. Não se sente culpado pela própria mentira. Se a mentira for descoberta, alguém terá se prejudicado e ele, o mentiroso, vai se vitimizar. Mas se a mentira for bem-sucedida, ele reivindicará o protagonismo e aproveitará os benefícios.
A mentira que oculta o vazio existencial do mentiroso é uma espécie de recurso fácil para lidar com frustrações e sustentar uma imagem frágil de si. Dessa forma, sua identidade e possíveis identificações serão sempre passageiras. No fim, o mitômano está desesperado pela própria covardia e fragilidade de caráter. Dá pena. Em casos extremos, dá pena literal.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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