Ler as entrelinhas do mundo dói. Não sei quando me dei conta disso, parece que foi ontem, parece que foi hoje, escrevendo esta crônica, ou talvez na infância eu já soubesse disso e estou relembrando aos poucos. Manter a alma intacta, sem deixar-se despedaçar pelo não dito que grita diante dos nossos olhos, é uma forma de sobrevivência. Aprendemos desde cedo a abafar sentimentos.
A sensibilidade incomoda. Para quem sente fundo, um olhar torto, um sorriso forçado, um silêncio denso ou uma frase quebrada escondem um universo inteiro. Sentir te faz entrar nas cavernas da vida. Dá medo. Mas, segundo Clarice, “depois do medo, vem o mundo”. E esse mundo que vem não é plano, é montanhoso.
O que me ocorre agora sobre Clarice Lispector é algo que foi escrito por Caio Fernando Abreu em uma carta ao amigo Zézim sobre as angústias de quem escreve. Caio, fã de Clarice, dizia que ela o fazia doer inteiro, porque parecia se doer também de tanta compreensão sangrada de tudo.
Clarice chegou e foi embora em dezembro. Renasce todo dia. Impossível ler Clarice e esquecê-la. Sua escrita não pede permissão, chega e atravessa. Se inscreve. Em uma entrevista disse: "Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca ou não toca".
Sentir é também interpretar, ler algo além do raso da vida. Quem sente sabe o que é aperto no coração, mas também conhece sorriso nos olhos. Conseguir adentrar no universo das vibrações e transformar a sutileza em língua nativa faz crescer as referências de humanidade, desenha novas rotas. A sensibilidade é um dom. Escutar o imperceptível do universo pode mesmo doer muito, mas dor não é patologia, é travessia. Essa lição é difícil de aprender, mas cai na prova da vida, cedo ou tarde.
Clarice sentia com a pele do pensamento. Sua escrita é a cartografia de uma alma que se lança ao mar revolto, mas tem a si como porto seguro. Esse exemplo de fidelidade consigo encanta, seduz, emociona. Não há hermetismo, há sentimento. Isso é viral. Mesmo os desajeitados com as emoções fantasiam esse mergulho em águas profundas.
Há riscos em sentir mais. Há quem prefira o deserto ao risco de transbordar. Estar disponível para ser tocado, transformado, desorganizado é abrir uma possibilidade de ser atravessado pela vida. Às vezes dói, em outras extasia. Nem todo mundo está disposto a pagar o preço da lucidez que amplia nossa humanidade.
A dureza emocional cobra o mais alto dos preços, o esvaziamento da alma. Não cabe julgamento a quem opta por esse caminho, mas sempre cabe lamento aos que deixam o mundo menos clarividente. Da minha parte, eu sinto muito.
Aos que pouco ou nada sentem, deixo mais uma dose de Clarice, a única, copiada, plagiada, inigualável e eterna. "Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada".