Há uma aparente contradição na sociedade que precisa ser mais bem compreendida no que diz respeito ao aumento do número de feminicídios em todo mundo ao mesmo tempo em que mulheres avançam na conquista de direitos e na ocupação de cargos nos quais, em tese, exerceriam poder.
A morte de Dayse Barbosa, comandante da Guarda Municipal de Vitória, mulher aparentemente empoderada e que não se enquadraria, em tese, no perfil típico de mulher frágil, dependente, submissa, sem autonomia, sem força e desamparada socialmente, pode causar espanto em alguns que não estão mais diretamente afinados com a temática do ponto de vista acadêmico.
A indignação geral com o assassinato, manifestada nos comentários sobre o absurdo do ocorrido e nas referências ao assassino como sendo um “psicopata”, um “doente mental”, um “monstro”, me levaram a escrever esse texto fazendo uma breve consideração sobre o assunto a partir de uma outra perspectiva.
Não! Diego Oliveira de Souza, policial rodoviário federal, assassino de Dayse, não é um monstro, um psicopata, um doente mental. Ele é simplesmente um homem sendo homem. Um homem que seguiu a cartilha que lhe foi ensinada, validada, cobrada. Um comportamento violento, de ódio e de desprezo pelas mulheres.
Um homem que, como a maioria dos homens, se sente dono da mulher, proprietário de um objeto que sobre o qual tem absoluto direito de fazer uso, de controlar, de manter aprisionada em um relacionamento, seja ele abusivo ou não. O assassinato de Dayse não diz nada sobre ela e sobre ele. Diz sobre nós e nossa sociedade.
Ele é apenas um homem frustrado, indignado, fracassado, deprimido por perceber que aquilo que lhe foi ensinado como verdade, naturalizado socialmente, não tem mais lugar na sociedade atual.
Mulheres não aceitam mais aquilo que o patriarcalismo machista e misógino lhes impôs por séculos. Elas querem ser simplesmente mulheres. Mulheres livres, autônomas, senhoras de seu próprio destino. Não precisam mais ter um homem para chamar de seu, nem de alguém para lhes dar credibilidade, visibilidade e poder. Elas são por si mesmas, independentes de um companheiro para lhes sustentar, credibilizar e validar socialmente.
O problema é que o processo de desconstrução de uma cultura milenar é doloroso, lento e precisa de políticas publicas de Estado, que passem por uma política educacional que se inicie na primeira infância, como eixo transversal, sistemático e com avaliação permanente de eficácia.
Uma política educacional que seja não apenas implementada na educação formal, mas política institucional, de formação profissional e social das mais valorizadas. Uma política nacional que objetive forjar homens e mulheres que se vejam como iguais em direitos e responsabilidades.
O feminicídio é uma pandemia em ascensão em todo o mundo. Dados da OMS indicam que uma em cada três mulheres no mundo sofrem violências físicas nas quais se incluem as violências sexuais.
Os homens matam porque são fracos, impotentes e incapazes de suportar que as mulheres lhes digam “NÃO”.
Os homens matam porque o sistema patriarcal, solidamente estruturado nas instituições e na cultura, valida o sentimento de superioridade do homem sobre a mulher.
Os homens matam porque a violência é ensinada nos pequenos atos do cotidiano nos quais o desprezo e o ódio às mulheres são legitimados socialmente.
Essa cultura só será desconstruída quando mulheres estiverem em lugares de decisão nos quais possam colocar de ponta cabeça as diretrizes validadoras do patriarcado, do machismo e da misoginia.