A vida nos surpreende todos os dias das formas mais inesperadas e assombrosas. Nela, o absurdo se manifesta com requinte e sofisticação. Seja no espetáculo cotidiano da vida midiatizada pelas redes sociais, seja no dia a dia das violências que se naturalizam, o certo é que deslocamos o centro da vida considerada “normal” para uma teatralidade que não mais está sob o nosso domínio.
O teatro, lugar, por excelência, do espetáculo e da representação, deixou de ser o locus onde os artistas se apresentam com suas peças cuidadosamente ensaiadas, em longos períodos preparatórios, nos quais, juntamente com os diretores, se empenham em buscar uma performance que os aproxime do que há de mais refinado na capacidade humana de retratar a realidade, seja ela um drama, uma comédia, um romance ou qualquer outro gênero teatral.
Os artistas mais convincentes, capazes de nos envolver em um mundo de fantasia e de dramaticidade, com potencial para nos fazer chorar, ajoelhar e aceitar sermos roubados, traídos, mortos, estuprados e todas as demais formas de violações que, naturalmente, deveriam produzir revolta e busca por justiça, estão fora dos teatros e dos cinemas.
Eles ocupam um palco mediado por músicas religiosas, frenesi, delírio coletivo, mantras carregados de repetições sem qualquer sentido objetivo, por afirmativas violentas e ameaças de que comportamentos desviantes dos interesses das lideranças serão punidos com o fogo do inferno.
O palco preferido pelos melhores artistas, capazes de despertar nossos instintos mais primitivos, irracionais, é o palco das igrejas lideradas por falsos pastores, acumuladores de riquezas alheias, usurpadores do trabalho dos fiéis, ridicularizadores da fé e da dignidade, com poderes de transformar homens e mulheres de bem em seguidores cegos de suas heresias e vilipêndios.
O desprezo pelo outro, cidadão da Terra e dos céus que tanto almejam, é absoluto. Humilhar, ridicularizar, sujeitar, desprezar, subjugar faz parte do espetáculo que longe de ficar restrito ao ambiente religioso, é televisionado e retransmitido nas redes sociais de forma a amplificar a simbologia do poder religioso que detêm.
Assisti, perplexa, ao vídeo no qual pastores de uma importante igreja envolvida no escândalo do Banco Master, sem nenhuma possibilidade de negarem o que os fatos e provas atestam, encenarem um espetáculo dantesco, no qual utilizam como mantra a expressão: “Nós queremos pedir PERDÃO: por cada vez que os ignoramos, por cada vez que o dinheiro não foi administrado com sabedoria para investir no reino, por...”.
Em síntese, a mensagem que fica é: “Nós queremos pedir perdão, depois que nossas falcatruas são descobertas, para continuar agindo como sempre agimos, enquanto vocês continuam a seguir ajoelhados, humilhados, desprezados, chorando como se o pecado tivesse sido de vocês e não nosso”.
Perdão é a palavrinha mágica, doutrinariamente ensinada, utilizada por líderes religiosos para continuar traindo suas esposas, estuprando, enriquecendo, enquanto as ovelhas passam fome, violando direitos, usando o púlpito para fazer política, pregar a violência, o uso de armas enquanto se afirmam defensores da família e da pátria.