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Elda Bussinguer

Red Pill: quando a crise da masculinidade encontra as redes sociais

O movimento Red Pill costuma ser apresentado como uma novidade da era digital, mas, na realidade, representa a reembalagem de velhas formas de dominação masculina

Publicado em 02 de Junho de 2026 às 04:15

Públicado em 

02 jun 2026 às 04:15
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Mas afinal, o que significaria tomar a pílula vermelha, a “red pill”?


Apropriando-se da metáfora do filme Matrix (1999), das irmãs Wachowski, comunidades virtuais masculinistas passaram a utilizar o termo para designar homens que afirmam ter “despertado” para uma suposta realidade sobre as relações entre os sexos. 


Na narrativa difundida por esses grupos, o elemento comum é a construção de uma visão profundamente desconfiada e antagonista em relação às mulheres, que passam a ser retratadas como responsáveis pelos problemas enfrentados pelos homens e pelas transformações sociais contemporâneas.


O movimento Red Pill costuma ser apresentado como uma novidade da era digital, mas, na realidade, representa a reembalagem de velhas formas de dominação masculina sob uma nova linguagem, adaptada às dinâmicas das redes sociais e a um público cada vez mais jovem.

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A popularização desse tipo de discurso levanta alertas sobre o papel das redes sociais na formação de ideias e atitudes, especialmente entre jovens (Imagem: Strong Pictures | Shutterstock)

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Imagem de destaque

Didi Red Pill, ex-BBB acusado de envolvimento no 8 de janeiro, vive na Polônia

Sob a promessa de revelar uma suposta “verdade oculta” sobre as relações afetivas e sociais, influenciadores e produtores de conteúdo transformam frustrações individuais em ressentimento coletivo, convertendo mulheres e movimentos feministas em alvos permanentes de desconfiança, hostilidade e culpabilização.


A internet permitiu que essas ideias alcançassem milhões de pessoas em tempo recorde, especialmente adolescentes e jovens adultos que vivenciam incertezas econômicas, afetivas e identitárias. 


Em um cenário marcado pela crise das formas tradicionais de masculinidade, muitos encontram nesses discursos uma explicação simples para problemas complexos. O resultado é a construção de um inimigo conveniente: as mulheres, o feminismo e os avanços conquistados em matéria de igualdade de gênero.


O aspecto mais preocupante desse fenômeno está na forma gradual pela qual a violência contra as mulheres é normalizada. Em um primeiro momento, o discurso Red Pill raramente se apresenta como uma defesa explícita da misoginia. 


Pelo contrário, costuma ser difundido sob a roupagem do autodesenvolvimento masculino, do empreendedorismo, da conquista amorosa e do aperfeiçoamento pessoal, frequentemente comercializados por meio de mentorias, cursos e consultorias online. 


Entretanto, à medida que o indivíduo se aprofunda nesse universo, as mensagens tornam-se progressivamente mais hostis. O que começa com piadas, comentários depreciativos e estereótipos sobre as mulheres evolui para a naturalização da humilhação, da objetificação feminina e da ideia de que homens e mulheres ocupam posições hierárquicas naturalmente distintas. 

Redpill
Redpill na trilogia Matrix Reprodução / Matrix / Warner Bros. Pictures

Esse processo de radicalização não ocorre de forma abrupta. Trata-se de uma escalada gradual em que a violência simbólica e discursiva prepara o terreno para manifestações cada vez mais graves de agressão. 


Quando o desprezo pelas mulheres é normalizado, cria-se um ambiente propício para a legitimação do assédio, da cultura do estupro, da violência psicológica, da violência física e, em seus estágios mais extremos, para aquilo que representa a forma máxima de violência de gênero: o extermínio da vida das mulheres por sua condição de mulher, isto é, o feminicídio.


Ao transformar mulheres em responsáveis por frustrações masculinas, converte questões estruturais em conflitos individuais. O discurso antimulher funciona como um bode expiatório para problemas muito mais profundos, relacionados à precarização do trabalho, ao isolamento social, às dificuldades econômicas e à própria crise da reprodução social produzida pelas contradições do capitalismo contemporâneo. 


Em vez de questionar as estruturas que geram insegurança e desigualdade, desloca-se a culpa para aquelas que historicamente já ocupam posições de vulnerabilidade.

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O enfrentamento desse fenômeno exige mais do que indignação moral. É necessária a construção de contradiscursos fortes, capazes de disputar narrativas, promover educação crítica e fortalecer valores democráticos e igualitários.


Da mesma forma, torna-se indispensável o aprimoramento de leis e normativas voltadas ao combate à violência de gênero no ambiente digital, bem como a regulamentação das plataformas para impedir a monetização e o impulsionamento de conteúdos que promovam misoginia, discriminação e discursos de ódio. 


Em uma sociedade conectada, proteger a igualdade de gênero significa também enfrentar os mecanismos que transformam a violência em produto, audiência e, principalmente, em uma lógica baseada na ideia de lucro.


*Com coautoria de Raissa Lima Salvador, doutora em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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