A Páscoa, desde sua origem no Pessach judaico até sua ressignificação no cristianismo, carrega um eixo central: a passagem da opressão para a liberdade. No Antigo Testamento, simboliza a libertação de um povo escravizado; no Novo Testamento, representa a vitória da vida sobre a morte. Em ambos os casos, trata-se de romper com estruturas que aprisionam e negam a dignidade.
Neste feriado de Páscoa cristã, é necessário reafirmar que, para além do retorno à vida, há a superação de uma lógica de opressão. Jesus é morto por uma estrutura de poder que busca eliminar aquilo que ameaça a ordem vigente, mas sua ressurreição rompe essa lógica e revela que essa estrutura opressora não tem a última palavra. Sua mensagem de amor e liberdade atravessou milênios e continuar a ecoar entre nós.
Nesse sentido, ao refletirmos neste mês de março, marcado pela luta das mulheres por igualdade, torna-se inevitável estabelecer um paralelo com estruturas como o machismo e a misoginia. Esses sistemas também produzem morte, e não apenas física, embora muitas vezes também, mas sobretudo simbólica como: silenciamento, medo, desigualdade e apagamento.
Isso ocorre porque ainda vivemos em uma sociedade atravessada pelo machismo estrutural, isto é, por uma organização histórica que privilegia os homens, e pela misoginia, que desvaloriza e inferioriza as mulheres. Juntos, esses elementos sustentam e naturalizam diversas formas de opressão e seguem perpetuando a violência.
Dessa forma, quando se fala em “vitória da vida sobre a morte”, é fundamental ampliar essa reflexão para a necessidade de romper com essas estruturas. A vida vence, também, quando aquilo que aprisiona, violenta e desumaniza deixa de ser naturalizado.
É importante reconhecer que o próprio cristianismo se desenvolveu em uma sociedade machista e, por isso, parte de suas tradições acabou reproduzindo essa desigualdade ao longo da história. No entanto, precisamos sempre lembrar que a mensagem central da Páscoa aponta em outra direção: a da libertação, da dignidade e da igualdade, o que exige não apenas reconhecimento, mas revisão das estruturas que ainda perpetuam essa opressão.
Assim como os israelitas viviam sob um sistema que naturalizava sua subjugação, muitas mulheres ainda enfrentam contextos em que a desigualdade de gênero é estrutural, sustentando violências físicas, psicológicas e simbólicas. A misoginia, nesse cenário, opera como uma forma contemporânea de opressão, legitimando a negação de direitos e a limitação da liberdade feminina.
A mensagem da Páscoa, portanto, não deve ser reduzida apenas a um evento religioso ou histórico. Trata-se de um chamado ético: não há verdadeira celebração da liberdade enquanto ela não for universal. A “passagem” precisa acontecer também no plano social, conduzindo a sociedade de uma cultura de violência e desigualdade para uma realidade baseada no respeito, na equidade e na justiça entre os gêneros.
Assim, celebrar a Páscoa hoje é reconhecer que a libertação ainda está em curso. Combater a violência contra a mulher é, nesse sentido, dar continuidade concreta ao significado pascal: promover a vida, restaurar a dignidade e garantir que a liberdade, celebrada há milênios, seja efetivamente igual para todas as pessoas.