Há momentos em que a história demora a fazer justiça, mas a memória encontra caminhos para repará-la.
Nesta semana, a Universidade Federal do Espírito Santo deu um passo simbólico nessa direção. O Conselho Universitário aprovou a inclusão do meu retrato na galeria de reitores da instituição como reitora eleita em 2020, mas não nomeadainclusão do meu retrato na galeria de reitores da instituição como reitora eleita em 2020, mas não nomeada.
Não se trata apenas de uma homenagem pessoal. Trata-se de um gesto institucional de memória.
Em 2020, fui a candidata mais votada pela comunidade universitária da Ufes, a primeira colocada na lista tríplice encaminhada ao governo federal e a primeira mulher eleita pela comunidade universitária para ocupar a reitoria da instituição. Ainda assim, outro nome foi escolhido para o cargo.
Formalmente, a decisão era possível. Politicamente, foi percebida por grande parte da comunidade acadêmica como um desrespeito à autonomia universitária e à escolha democrática da universidade.
Quase seis anos depois daquele dia e justamente no mês de março, quando celebramos a luta das mulheres por igualdade, a lembrança daquele episódio ainda revela o quanto a democracia precisa ser permanentemente defendida.
E a Ufes não estava sozinha.
Entre 2019 e 2022, dezenas de universidades federais viveram situações semelhantes. Em várias instituições, reitoras e reitores mais votados foram preteridos na nomeação final do Executivo federal.
Foi nesse contexto que um grupo de dirigentes eleitos e não empossados decidiu reagir. Recorrermos ao Supremo Tribunal Federal e tornamos pública a carta aberta intitulada “A democracia precisa prevalecer”, denunciando as intervenções nas universidades federais e defendendo um princípio simples: reitoras e reitores eleitos devem ser empossados.
Também entendemos que não bastava resistir naquele momento. Era preciso registrar o que estava acontecendo.
Foi assim que nasceu o livro “Intervenções nas Instituições Federais de Ensino: reitoras e reitores eleitos e não empossados”, escrito coletivamente por dirigentes que viveram diretamente esse processo. A obra documenta uma fase delicada da história recente das universidades brasileiras e preserva a memória institucional daquele período.
Escrevemos esse livro porque sabíamos que a memória seria essencial para compreender o que estava acontecendo no país.
Há sempre pelo menos duas formas de reagir diante da violência: a inação ou a resistência. Eu escolhi a segunda.
Denunciei o que estava acontecendo nas universidades, participei das ações judiciais que questionavam as intervenções e usei todos os espaços públicos possíveis para registrar aquele momento da história.
Na ADPF 759, que tramitou no Supremo Tribunal Federal, reitoras e reitores não nomeados atuaram como amicus curiae, defendendo que a escolha da comunidade universitária fosse respeitada. Não vencemos aquela disputa naquele momento. Mas a luta continuou.
Na semana passada, registramos nossa maior vitória: o Senado Federal aprovou, após a aprovação na câmara dos deputados, a mudança na legislação para acabar com a lista tríplice e garantir que os reitores eleitos pelas comunidades universitárias sejam efetivamente nomeados. É uma resposta institucional a um problema que ficou evidente nos últimos anos, mas o episódio das intervenções nas universidades revelou algo maior.
Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt explicam, no livro "Como as Democracias Morrem", que muitas vezes o autoritarismo não chega rompendo abruptamente a ordem constitucional. Ele se instala gradualmente, utilizando as próprias instituições democráticas para corroê-las por dentro.
Foi exatamente esse tipo de processo que vimos no Brasil.
O questionamento sistemático das instituições, os ataques à ciência durante a pandemia, a deslegitimação de eleições e, por fim, a tentativa de ruptura institucional que culminou nos episódios golpistas de janeiro de 2023.
A história recente mostrou que aquela escalada não era episódica. Era parte de um projeto político.
Nesse contexto, a decisão da Ufes de registrar na galeria de reitores a memória de uma eleição desrespeitada ganha um significado ainda mais profundo.
Ela afirma que a universidade reconhece o que aconteceu.
E reafirma que a autonomia universitária e a democracia interna não são meros rituais administrativos são pilares da própria vida democrática.
A universidade pública brasileira tem um papel singular nesse processo. É um dos espaços onde o pensamento crítico se forma, onde o debate plural acontece e onde a sociedade aprende a conviver com a diferença.
Por isso, quando a escolha democrática de uma comunidade universitária é ignorada, não é apenas uma eleição que se desrespeita.
É a própria ideia de democracia que se fragiliza.
O gesto da Ufes não muda o passado, mas garante algo fundamental: que o passado não seja esquecido.
Porque há momentos na história que não cabem no calendário. Eles passam a fazer parte da memória. E preservar a memória é uma das formas mais importantes de proteger a democracia.