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Ethel Maciel

Uma reitora da Ufes: quando a memória protege a democracia

O gesto da Ufes não muda o passado, mas garante algo fundamental: que o passado não seja esquecido

Públicado em 

19 mar 2026 às 04:10
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Há momentos em que a história demora a fazer justiça, mas a memória encontra caminhos para repará-la.
Não se trata apenas de uma homenagem pessoal. Trata-se de um gesto institucional de memória.
Em 2020, fui a candidata mais votada pela comunidade universitária da Ufes, a primeira colocada na lista tríplice encaminhada ao governo federal e a primeira mulher eleita pela comunidade universitária para ocupar a reitoria da instituição. Ainda assim, outro nome foi escolhido para o cargo.
Formalmente, a decisão era possível. Politicamente, foi percebida por grande parte da comunidade acadêmica como um desrespeito à autonomia universitária e à escolha democrática da universidade.
Quase seis anos depois daquele dia e justamente no mês de março, quando celebramos a luta das mulheres por igualdade, a lembrança daquele episódio ainda revela o quanto a democracia precisa ser permanentemente defendida.
E a Ufes não estava sozinha.
Entre 2019 e 2022, dezenas de universidades federais viveram situações semelhantes. Em várias instituições, reitoras e reitores mais votados foram preteridos na nomeação final do Executivo federal.
Foi nesse contexto que um grupo de dirigentes eleitos e não empossados decidiu reagir. Recorrermos ao Supremo Tribunal Federal e tornamos pública a carta aberta intitulada “A democracia precisa prevalecer”, denunciando as intervenções nas universidades federais e defendendo um princípio simples: reitoras e reitores eleitos devem ser empossados.
Também entendemos que não bastava resistir naquele momento. Era preciso registrar o que estava acontecendo.
Foi assim que nasceu o livro “Intervenções nas Instituições Federais de Ensino: reitoras e reitores eleitos e não empossados”, escrito coletivamente por dirigentes que viveram diretamente esse processo. A obra documenta uma fase delicada da história recente das universidades brasileiras e preserva a memória institucional daquele período.
Escrevemos esse livro porque sabíamos que a memória seria essencial para compreender o que estava acontecendo no país.
Há sempre pelo menos duas formas de reagir diante da violência: a inação ou a resistência. Eu escolhi a segunda.
Denunciei o que estava acontecendo nas universidades, participei das ações judiciais que questionavam as intervenções e usei todos os espaços públicos possíveis para registrar aquele momento da história.
Na ADPF 759, que tramitou no Supremo Tribunal Federal, reitoras e reitores não nomeados atuaram como amicus curiae, defendendo que a escolha da comunidade universitária fosse respeitada. Não vencemos aquela disputa naquele momento. Mas a luta continuou.
Na semana passada, registramos nossa maior vitória: o Senado Federal aprovou, após a aprovação na câmara dos deputados, a mudança na legislação para acabar com a lista tríplice e garantir que os reitores eleitos pelas comunidades universitárias sejam efetivamente nomeados. É uma resposta institucional a um problema que ficou evidente nos últimos anos, mas o episódio das intervenções nas universidades revelou algo maior.
Ufes
Prédio da administração central - Reitoria da Ufes Crédito: Carlos Alberto Silva
Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt explicam, no livro "Como as Democracias Morrem", que muitas vezes o autoritarismo não chega rompendo abruptamente a ordem constitucional. Ele se instala gradualmente, utilizando as próprias instituições democráticas para corroê-las por dentro.
Foi exatamente esse tipo de processo que vimos no Brasil.
O questionamento sistemático das instituições, os ataques à ciência durante a pandemia, a deslegitimação de eleições e, por fim, a tentativa de ruptura institucional que culminou nos episódios golpistas de janeiro de 2023.
A história recente mostrou que aquela escalada não era episódica. Era parte de um projeto político.
Nesse contexto, a decisão da Ufes de registrar na galeria de reitores a memória de uma eleição desrespeitada ganha um significado ainda mais profundo.
Ela afirma que a universidade reconhece o que aconteceu.
E reafirma que a autonomia universitária e a democracia interna não são meros rituais administrativos são pilares da própria vida democrática.
A universidade pública brasileira tem um papel singular nesse processo. É um dos espaços onde o pensamento crítico se forma, onde o debate plural acontece e onde a sociedade aprende a conviver com a diferença.
Por isso, quando a escolha democrática de uma comunidade universitária é ignorada, não é apenas uma eleição que se desrespeita.
É a própria ideia de democracia que se fragiliza.
O gesto da Ufes não muda o passado, mas garante algo fundamental: que o passado não seja esquecido.
Porque há momentos na história que não cabem no calendário. Eles passam a fazer parte da memória. E preservar a memória é uma das formas mais importantes de proteger a democracia.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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