Sabe aquele jogador que encanta a torcida com jogadas fantásticas que resultam em adversários desnorteados, mas nunca em um gol? A torcida vai à loucura, mas o time permanece na zona do rebaixamento... Pois é, governantes e mesmo autoridades públicas que não dependem de voto frequentemente se preocupam mais em mostrar serviço do que em alcançar resultados práticos, até porque o eleitor precisa acompanhar o Big Brother e não pode perder tempo em conferir se políticas públicas de segurança, saúde e educação estão realmente dando certo. Saber que cancelaram um CPF já atende ao nosso desejo de vingança contra malfeitores e está tudo certo.
Na revolução de independência dos EUA, ocorreu algo inédito: as forças patriotas, praticamente amadoras, romperam um acordo tácito de nunca visar oficiais, que morriam nas batalhas apenas por azar. Caçadores experientes e com armamento específico para atirar contra animais (alvos individuais) foram utilizados naquele conflito para eliminar os oficiais ingleses.
Era bem fácil. Se hoje os militares andam de uniforme camuflado e quase sem distinção entre soldados rasos e generais, naquela época pareciam estar desfilando no carnaval, em vermelho e dourado. E os oficiais se vestiam como destaques dos carros alegóricos. Aliás, ainda gostavam de comandar sobre cavalos, pintando um alvo bem grande em si mesmos.
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Naquela época, deu certo não apenas porque isso prejudicava o moral do adversário, mas, principalmente, porque praticamente todos os soldados eram analfabetos e não sabiam fazer contas. Eram incapazes de fazer mira em um canhão, ler um mapa ou ordens escritas etc. A perda de um oficial realmente deixava a unidade acéfala.
Atualmente, com o grande avanço no ensino formal, soldados frequentemente têm nível superior e dominam o emprego de equipamentos altamente sofisticados. O aumento da profissionalização das forças armadas também reduz drasticamente o impacto da perda de um alto comandante. Na verdade, ataques de “decapitação”, se os alvos não forem muito bem escolhidos, podem ajudar o inimigo, livrando-o de alguém que ascendeu na hierarquia em tempos de paz e se mostrou um completo incompetente na guerra de verdade.
El Mencho podia ocupar o topo da hierarquia do tráfico de um dos mais perigosos cartéis do tráfico mexicano, mas era absolutamente descartável.
10 entre 10 analistas concluíram que a morte dele não terá efeito algum, na melhor das hipóteses, mas o mais provável é que aumente a violência naquele país, seja por uma eventual guerra pela ocupação do seu posto, seja pelo desdobramento do cartel em outros menores, seja, ainda, simplesmente porque novos líderes tendem a adotar métodos mais agressivos, violentos e arriscados, mesmo que não tenham lido Maquiavel.
Em resumo, neutralizar traficantes no topo da hierarquia sempre é melhor do que entupir as cadeias com aviõezinhos, mas apenas porque dá menos trabalho, menos despesa e atrapalha menos o combate sério. Estrategicamente falando, o único proveito é fornecer a Trump algo que ele possa entregar ao eleitor norte-americano e, assim, contentar momentaneamente o volátil e poderoso chefe do país vizinho. Infelizmente, vemos isso se repetir, seja no Flamengo, seja na Seleção Brasileira, seja no enfrentamento ao tráfico aqui no Brasil. Viva o Lanus, morra El Mencho.