A editoria pediu uma coluna sobre o Dia Internacional da Mulher, mas, como o tema é segurança pública, seria obrigado a requentar um texto recente, em que, para surpresa de muitos e escândalo de todos, afirmo que, apesar das estatísticas crescentes, não podemos concluir que os feminicídios estejam aumentando; pelo contrário, é provável que estejam diminuindo. É que, por milênios, a violência doméstica era considerada o correto, depois aceitável e, por fim, passamos décadas fingindo que até podia ser um problema, mas nunca acontecia.
Agora passamos a medir, aumentamos os canais de comunicação, incentivamos as denúncias, alteramos a legislação etc. Então, por enquanto, não dá para comparar um ano com os anteriores. A única fonte confiável a ser estudada, mas indireta, são os homicídios em que a vítima é do sexo biológico feminino. A Lei Maria da Penha e outras políticas públicas podem estar sendo um enorme sucesso na prática, mas ainda não é possível medir a não ser em casos como o de Vitória, em que os feminicídios andam zerados.
Melhor falar da nova prisão de Vorcaro, mas, claro, como sempre evitando ser apenas mais um repetindo obviedades e chamar a atenção para a indignação seletiva de sempre. É que, até agora, não vi ninguém propondo cancelar CPFs, fazer leis mais rígidas, propondo pena de morte.
Se você furta um celular, corre o risco de ser linchado; no mínimo, aparece um senador propondo aumentar a pena para esse tipo de crime. No entanto, se você é suspeito de sumir com alguns bilhões, a discussão pública é se você deve responder preso à acusação ou pode ser solto. Aliás, a indignação pública está sendo mais dirigida aos julgadores que ao suspeito. Escrutinam quantas namoradas ele tinha, se ele teve a sua basta cabeleira raspada e vamos por aí.
Como dizem os americanos, se alguém não consegue pagar mil dólares, está em apuros; se deve dez mil dólares, o gerente é quem tem um problema; se deve um milhão, o problema é do banco. E se o banco é quem some com alguns bilhões, o problema não é de ninguém.
O caso do Banco Master só está rendendo tanta polêmica porque passou a servir de munição em período pré-eleitoral e porque ricocheteou em alguns ministros do STF que vivem às turras com parte da população. Poderia fazer aqui uma interminável lista de políticos e banqueiros que até já andaram de carona nas viaturas da Polícia Federal, mas não se contentam com a liberdade, fazem questão de aparecer nas redes sociais. Não há muitas passeatas pedindo justiça para os crimes do colarinho branco, os acusados não são atacados na rua nem expostos pela imprensa. Na verdade, eles é que se expõem no Instagram.