Os mais recentes escândalos da história política brasileira têm proporcionado aos brasileiros, graças ao jornalismo investigativo da imprensa, a oportunidade de tomar conhecimento das entranhas dos nossos poderes públicos. É a imprensa que tem escancarado a intimidade desfrutada pelo dono do Banco Master com as autoridades dos três poderes da República.
São as denúncias da imprensa que desnudaram os supersalários de uma minoria de privilegiados do funcionalismo público. É também a apuração da imprensa a responsável pela descoberta dos desvios milionários nas emendas parlamentares, pela primeira vez punidos pelo Supremo Tribunal Federal.
O caso do Banco Master é emblemático. Tudo caminhava para aquilo que a opinião pública, sempre sábia, apelidou de “acabar em pizza”. O processo foi avocado pelo STF que determinou sigilo em torno de todas as provas colhidas, a ponto de impedir até o acesso da Polícia Federal ao material por ela mesma obtido. Foi graças à apuração de uma jornalista que o envolvimento de autoridades com o dono do banco tornou-se conhecido, o que resultou em desdobramentos que chegou à substituição do ministro-relator do processo no STF.
A farra dos supersalários que furam o teto estabelecido pela Constituição Federal só se tornou conhecida pela persistência da imprensa em denunciar o absurdo das verbas indenizatórias e dos auxílios-perus que beneficiam 0,06% do total dos servidores federais com valores que chegam a R$ 11 bilhões por ano.
Foram tantas as reportagens sobre o assunto que, em fevereiro, o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu os pagamentos dos penduricalhos nos três poderes da República. A medida não é definitiva, já que o STF pretende definir novas regras para esses pagamentos, mas pelo menos ficou claro que a prática absurda até então vigente precisa ser revista.
O mesmo panorama se aplica às emendas parlamentares que já chegaram a ser chamadas de parte do “orçamento secreto” apropriada pelo Poder Legislativo de maneira cada vez mais voraz. Em 2015 elas eram de R$ 4 bilhões; em 2026 chegarão a R$ 50 bilhões. E são impositivas, ou seja, o Poder Executivo é obrigado a liberá-las, queira ou não. A Transparência Internacional, há anos, tem alertado sobre a necessidade de serem garantidas maiores transparência e rastreabilidade às emendas.
A recente condenação, pelo STF, de dois deputados federais e de um ex-parlamentar, acusados de desviarem R$ 1,6 milhão de emendas destinadas a serviços de saúde do Maranhão, foi motivada por denúncia publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 2021. Chama a atenção que o valor desviado corresponde a 25% do montante das emendas, o que demonstra a enorme proporção do dinheiro criminosamente apropriado pelo sistema de corrupção.
Nos estudos de comunicação, o papel do jornalismo é quase sempre comparado ao do cão de guarda que late forte ao perceber que algo põe em risco a comunidade. É o conceito “Imprensa Watchdog”, abordado por vários autores da área. É esse papel de cão de guarda que a imprensa continua exercendo, mesmo sob intenso tiroteio dos detentores do poder e dos seus milhares de robôs que infestam as mídias sociais.
Isso, evidentemente, incomoda os poderosos que continuam buscando varrer para baixo do tapete os seus malfeitos criminosos.