Polícia faz megaoperação no Complexo da Penha e no Alemão, Rio de JaneiroCrédito: Agência Enquadrar/Folhapress
"Nada é mais violento do que a política; se os militares só combatem quando estão em guerra, os políticos estão em guerra o tempo todo", escreve o analista político ítalo-suíço Giuliano Da Empoli, em "A hora dos predadores".
O combate a que ele se refere, claro, é metafórico, mas os ares de uma guerra bem real levaram recentemente os políticos brasileiros, inclusive os do Espírito Santo, a adotar táticas para ganhar terreno. A megaoperação no Rio de Janeiro que deixou mais de 120 mortos, no último dia 28, exigiu posicionamentos públicos e um mínimo de medidas práticas, afinal, estamos em ano pré-eleitoral.
Na Assembleia Legislativa, a megaoperação virou assunto dos discursos dos parlamentares e o presidente da Casa, Marcelo Santos (União Brasil), enviou ofício ao governador Renato Casagrande (PSB) sugerindo "que as forças de segurança fiquem em estado de alerta".
O vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), coordenador do programa Estado e Presente e pré-candidato a governador, afirmou que não há nenhum indício de migração em massa de bandidos cariocas para o Espírito Santo. Mas o serviço de inteligência está monitorando quaisquer movimentações.
O que ocorre, na verdade, é uma onda de respostas midiáticas, não necessariamente com efeitos a médio prazo. Se os políticos silenciassem, porém, também seriam criticados.
É um tema que, certamente, vai permear as eleições de 2026.
A própria operação, determinada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), pode ser lida como um ato político-eleitoral. Uma evocação, ainda que mais branda, dos métodos de Nayib Bukele, em El Salvador.
A ideia central é responder às barbaridades cometidas pelos criminosos com mais barbárie. Uma população assustada exige alguma resposta, nem que seja essa.
É aí que mora o perigo. Não há soluções simples para problemas complexos.
Matar vários (supostos) bandidos sem o devido processo legal mostra atitude, mas não inteligência.
As grandes lideranças do Comando Vermelho e, principalmente, o dinheiro do grupo não pararam de circular. Os tentáculos do crime organizado nas instituições públicas também continuam intactos.
Mas investigar, cruzar dados e fortalecer as corregedorias das polícias é algo bem menos espetacular do que tiro, porrada e bomba.
Quem disser o contrário, portanto, corre o risco de perder votos.
A esquerda e a centro-esquerda, historicamente no Brasil, deixaram a pauta da segurança pública em segundo plano, o que abriu caminho para a direita se arvorar como "especialista" no assunto.
Nem deveria ser uma declaração polêmica. Embora não raro haja mortes em confrontos com a polícia ou possíveis execuções extrajudiciais durante operações, um número grande de mortes assim, realmente, não é algo que se veja todo dia.
Mas, no Instagram, grande parte dos mais de 15 mil comentários dos leitores contêm críticas ao governador e em defesa da matança.
Não faço aqui uma análise detalhada desses comentários, é apenas uma observação.
Quanto ao governo Lula (PT), há dados mais concretos. A AP Exata monitorou que, após a megaoperação no Rio, a imagem do presidente da República piorou nas redes sociais.
Isso reverteu o bom momento angariado após a defesa da soberania nacional feita pelo petista diante das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil.
O humor dos eleitores, como se nota, é variável. Mas a questão da segurança pública não vai desvanecer em 2026, até porque é um problema real, não trata-se de "narrativa".
O mesmo não se pode dizer das soluções propostas por Cláudios Castros da vida.
Apelar aos direitos humanos, ao bom senso e ao "espírito cristão" do povo brasileiro, entretanto, tampouco adianta.
As pessoas sofrem na pele e no bolso os efeitos das atividades das organizações criminosas. É natural que tenham mais compaixão por si mesmas que por seus algozes.
Mais eficiente seria apontar a pouca inteligência e o desequilíbrio entre o custo e o benefício de megaoperações como a realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio. E apresentar medidas que, realmente, façam a diferença.
Enquanto o espetáculo das balas rende holofotes, o crime organizado continua operando nos bastidores — onde o Estado raramente se faz presente.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.