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taxa de juros no Brasil é uma das mais altas do mundo, todos sabemos. Há diversas razões para isso, a principal delas é o fato de o Brasil ter um déficit fiscal alto, alimentado pelos gastos do governo além da conta. O que falta é saber como conseguiremos criar condições para a redução dos juros no futuro próximo.
Tive o privilégio de tratar desse tema com uma das pessoas mais capacitadas para falar dele: Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, agora vice-presidente e chefe global de políticas públicas do NuBank. Ele foi o entrevistado na estreia do meu programa na CNN Brasil, Hot Market. Roberto foi direto: “Se não tivermos um choque fiscal, teremos muita dificuldade para conviver com juros mais baixos”. Se o governo não cortar gastos, não teremos juros menores.
O Brasil tem um histórico de gasto público elevado, e a dívida pública não só é alta, como cresce de maneira preocupante. É um problema do Brasil, mas também é um problema global no momento: os juros estão altos em todo o mundo, e grande parte dos países está muito endividada. Isso ainda é reflexo dos gastos que os governos fizeram durante a pandemia.
Roberto disse que os governos gastaram o equivalente a 18% do PIB global para manter as economias funcionando entre 2020 e 2022. O problema é que, de lá para cá, os governos não só não economizaram para pagar essa dívida, como não reduziram os gastos aos níveis anteriores. Ou seja: os governantes gostaram de gastar. Isso acontece no Brasil também. E esse tipo de política tem um custo mais alto em um país emergente como o nosso, que não é rico como os Estados Unidos, a China ou nações europeias.
“O Brasil teve várias melhoras na parte social, mas precisamos agora endereçar esse tema da estabilidade da dívida”, diz Roberto. “Nossos programas de fato melhoraram os índices sociais, mas precisamos ter uma reorganização de gastos do Brasil.” Todo país precisa gastar com a área social, mas também tem de investir para crescer e gerar mais empregos e bem-estar para as pessoas.
O Brasil tem um orçamento anual de R$ 2,4 trilhões, mas investe apenas R$ 80 bilhões. É muito pouco. Isso acontece porque esse orçamento é engessado, praticamente 90% dele já tem destino fixado pela Constituição, o que reduz a possibilidade de cada governo fazer suas políticas públicas.
Depois do fim da pandemia, a maioria dos governos fez como no Brasil: buscou equilibrar suas contas elevando impostos em vez de cortar gastos. Os aumentos, em sua maioria, foram sobre o capital, com tributação de dividendos, por exemplo. Isso faz com que sobre menos dinheiro para investimentos privados na economia, o que inibe o empreendedorismo e – de novo – reduz a injeção de dinheiro que resulta em mais crescimento, empregos e renda para as pessoas.
Os governos têm dificuldades em fazer ajustes duros em suas contas, porque cortar gastos gera impopularidade e afeta interesses de grandes setores da economia. Esse debate fica mais difícil ainda no Brasil de 2026, devido às eleições. É natural: os políticos querem ser eleitos, portanto vão prometer coisas que implicam em novos gastos. Mas, em 2027, o país tem um encontro marcado com esse problema.