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Desenvolvimento

Crescer por inteiro: por que o Espírito Santo precisa de uma política regional

Quatro municípios concentram a maior parte do PIB capixaba, enquanto regiões com potencial produtivo ainda enfrentam gargalos de crédito, infraestrutura e coordenação

Públicado em 

18 fev 2026 às 09:13
Felipe Storch

Colunista

Felipe Storch

Descentralizar o desenvolvimento econômico no Espírito Santo não é “levar a mesma coisa para todo lugar”. É criar condições para que diferentes territórios transformem suas vantagens em renda, emprego e arrecadação, reduzindo a dependência de poucos polos e amortecendo choques. O ponto de partida é reconhecer a concentração: os quatro municípios da Região Metropolitana (Serra, Vitória, Vila Velha e Cariacica) têm as maiores participações no PIB estadual.
A desigualdade aparece também no PIB per capita. Em 2023, a média estadual foi de R$ 54.733. Presidente Kennedy registrou R$ 537.983 (mais de nove vezes a média), enquanto Jerônimo Monteiro ficou em R$ 18,9 mil. Não se trata de “mérito” ou “falha” local, mas de estruturas produtivas muito diferentes (inclusive, a presença do petróleo e gás em alguns municípios) e de capacidades distintas de atrair investimento.
Vista aérea do bairro Enseada do Suá e Praça do Papa em Vitória
Região Metropolitana da Grande Vitória tem concentração econômica do ES  Crédito: Luciney Araújo
O desafio é que a interiorização vem ocorrendo de forma assimétrica também por desenho institucional. Hoje, 31 municípios da Região Norte capixaba integram a área de atuação da Sudene, o que abre acesso a instrumentos federais de política regional. Um exemplo é o Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), que admite financiar até 80% do investimento total do projeto e prevê prazos longos (até 20 anos em infraestrutura e até 12 anos nos demais empreendimentos, incluindo carência). Para investimentos intensivos em capital, essa combinação de alavancagem e prazo pode ser decisiva na decisão de localização.
Quando parte do Estado opera com esse “pacote” e outra parte não, a pergunta de política pública é inevitável: como compensar os outros municípios para que possam competir com equivalência? Compensar aqui não significa “prêmio”; significa corrigir a  desigualdade de ferramentas e reduzir o custo de oportunidade de investir no interior.
O café ilustra bem o que está em jogo. Existe um ativo reconhecido formalmente: o café arábica do Caparaó possui Indicação Geográfica na modalidade Denominação de Origem concedida pelo INPI, abrangendo municípios capixabas que hoje têm níveis de desenvolvimento econômico menores do que o potencial. Isso cria base para uma estratégia de valor agregado (qualidade, rastreabilidade e marca territorial) e para diversificar renda com serviços associados ao café.
No turismo, o Parque Nacional do Caparaó é outro ativo, mas a captura econômica é desigual. Em debate na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, foi citado que Alto Caparaó registrou 100.143 visitantes, enquanto a entrada pela portaria capixaba teve, em 2019, 23.215 visitas (com 9.673 em 2016). A leitura é simples: demanda existe; falta transformar fluxo em renda local do lado capixaba com acesso, serviços, sinalização, oferta organizada e governança do destino.
Quais gargalos precisam entrar no centro da agenda? O primeiro é crédito e investimento. Se a assimetria Sudene cria desvantagem de financiamento em parte do território, a resposta é fortalecer instrumentos estaduais que “nivelam o jogo”, com critérios transparentes e foco setorial. Há precedente: em 2022, foi noticiada a criação, pelo Bandes, de uma linha de crédito exclusiva para investimentos fora da área da Sudene. O princípio é correto; o desafio é torná-lo permanente, com governança e metas mensuráveis.
O segundo gargalo é infraestrutura “do dia a dia”: estradas vicinais, manutenção e sinalização, conectividade digital, saneamento e energia estável. Sem isso, a produtividade cai, o custo do serviço sobe e o território perde competitividade justamente onde poderia se diferenciar (experiência turística e produtos premium do agro).
O terceiro gargalo é coordenação. Interiorização não acontece por decreto, mas por ecossistemas. Regiões do Caparaó, sul e serrana precisam de governança regional com metas e projetos bancáveis: inovação e assistência técnica, agregação de valor (beneficiamento e certificações), integração entre prefeituras, setor produtivo e crédito, e uso inteligente de compras públicas para estimular cadeias locais.
Descentralizar é uma escolha de estratégia: diversificar as âncoras de crescimento do Espírito Santo. Se o movimento continuar assimétrico, o risco é concentrar oportunidades onde o instrumento é mais forte e subutilizar vocações onde há potencial. Política compensatória bem desenhada não é pauta “do sul”; é agenda de resiliência e desenvolvimento sustentável para o Estado inteiro.

Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno é economista com mestrado e doutorado em Administração e Contabilidade. É professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e econômicos de políticas públicas. Também é consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitória

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