Correção
02/04/2026
Ao contrário do que informava a versão anterior desta matéria, foi a Sesp, não a Polícia Civil, que negou a escolta ao delegado. O texto foi corrigido e atualizado.
O delegado Romualdo Gianordoli Neto, que atuou na Operação Baest, solicitou escolta armada após a investigação, com receio de sofrer represálias por parte dos investigados. Mas o pedido foi negado pela Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo (Sesp) sob a justificativa de que não havia sido comprovada ameaça concreta.
A solicitação foi feita em 5 de fevereiro, após o delegado depor na Corregedoria da corporação no âmbito do inquérito que apura suspeitas levantadas por ele em relação à Polícia Civil.
Nas redes sociais, Romualdo disse que a instituição se encontrava “bastante corroída” e que as investigações da Operação Baest acabaram não avançando contra um empresário da Serra pois ele teria ligação com pessoas do “alto escalão” da sociedade. Por conta disso, o delegado foi chamado para depor na Corregedoria, a fim de explicar essas acusações e dizer quem seriam essas pessoas ligadas ao investigado.
“Pedi a escolta após meu depoimento na Corregedoria em que citei vários nomes”, disse o delegado à reportagem.
Questionada por A Gazeta sobre a negativa à solicitação do delegado, a Sesp informou que o pedido foi recebido e analisado de forma técnica e imparcial, de acordo com o que determina a lei, “como ocorre em todo e qualquer pedido desta natureza realizado ao órgão”.
A corporação destacou que, de acordo com a legislação vigente, a escolta de autoridades pode ser concedida apenas em casos de ameaça concreta recebida em razão do exercício da função pública, o que não teria sido comprovado pelo delegado.
De acordo com a pasta, Romualdo Gianordoli apenas alegou receio de risco presumido e imaginado em decorrência de depoimento prestado como denunciante.
“O temor manifestado pelo requerente não decorre, ainda, do exercício de sua função como Delegado de Polícia, ou previamente como Subsecretário de Inteligência, mas sim por ter reportado nas redes sociais e, depois, confirmado em depoimento, denúncias de supostos ilícitos e irregularidades envolvendo recursos públicos e atos de corrupção”, manifestou a secretaria, em nota.
A Sesp explicou que, nos casos de denunciantes de crimes que sofrem ameaças concretas fora do exercício de funções públicas, o programa de proteção que existe é o Provita, sob a responsabilidade da Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH), que foi oferecido ao delegado, mas ele se recusou a ingressar.
Em conversa com A Gazeta, o delegado disse que, para ele, o Provita é inviável, pois teria de abdicar da carreira na corporação. “Eu teria que viver da bolsa do programa, mas isso não é o pior. Eu teria que mudar de Estado, de nome, ficar longe da minha família”, disse.
Operação Baest
A Operação Baest, realizada em 2025, é citada pela alta cúpula de segurança do Espírito Santo como uma das mais relevantes dos últimos anos por alcançar o braço financeiro do Primeiro Comando de Vitória (PCV). A ação resultou na apreensão de R$ 100 milhões em bens e no indiciamento de 20 pessoas supostamente ligadas a crimes de lavagem de capitais.
Após a Polícia Civil concluir as investigações, em setembro, o caso foi remetido ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), responsável por avaliar todas as provas reunidas contra os indiciados e decidir se oferece denúncia, solicita mais dados para complementar a investigação ou arquiva o caso.
As investigações que culminaram na Operação Baest eram tocadas pelo Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat), uma unidade criada na estrutura da Polícia Civil totalmente focada em investigar movimentações do crime organizado no Estado, por meio de ferramentas capazes de alcançar dados telemáticos e cibernéticos.
Assinaram o relatório final quatro delegados, incluindo Romualdo Gianordoli, que não era mais responsável pelo Ciat por ter sido promovido a subsecretário de Inteligência na Secretaria de Estado de Segurança logo após o centro de investigações prender Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo.
Em outubro de 2025, após assinar a conclusão do relatório com os delegados do Ciat, Romualdo Gianordoli foi exonerado do cargo de subsecretário. O secretário de Segurança, Leonardo Damasceno, disse ter havido quebra de confiança na relação com o chefe José Darcy Arruda, uma vez que os delegados do Ciat precisam se reportar ao delegado-geral e não à subsecretaria, conforme decreto que estabeleceu a criação da unidade em 2022.
José Darcy manifestou que os delegados respondiam somente a Romualdo Gianordoli e que os relatórios não eram passados ao comando da Polícia Civil. Mas o delegado discordou das acusações e publicou vídeos nas redes sociais com críticas ao comando da Segurança no Estado, dizendo, inclusive, que a corporação se encontrava “bastante corroída”.
Romualdo Gianordoli ainda associou sua demissão ao fato de ele e os demais investigadores terem identificado, nas investigações, pessoas supostamente ligadas ao governo do Estado. E que, por conta disso, o comando da Secretaria de Segurança teria decidido desligá-lo da subsecretaria, assim como seus colegas do Ciat.
Por conta dessas acusações, a Polícia Civil abriu um inquérito para apurar em qual aspecto haveria corrosão na estrutura e convocou Romualdo Gianordoli a depor e explicar as acusações.
Empresário investigado é alvo de tiros
O empresário da Serra investigado na Operação Baest foi alvo de um atentado em Jacaraípe, em março. A caminhonete Dodge Ram Rampage dele foi atingida por pelo menos quatro disparos na rua de casa.
O caso, que ocorreu por volta das 19 horas, foi confirmado pelo advogado Douglas Luz, responsável pela defesa do empresário. De acordo com Luz, o ataque foi praticado por dois homens que estariam encapuzados e que passaram cerca de quatro horas rondando a região antes do crime, a bordo de um carro.