• Nádia Alcalde

    Apaixonada por vinhos, Nádia Alcalde é jornalista, sommelière e consultora. Escreve sobre o universo da bebida, antenada com lançamentos, tendências e notícias..

De Pálava a Soreli: uvas mais resistentes ao calor chegam à Serra Gaúcha

Publicado em 25/03/2025 às 12h47
De Pálava a Ribuele: uvas mais resistentes ao calor chegaram à Serra Gaúcha

Cultivo experimental de novas variedades viníferas é aposta diante da crise climática. Crédito: Cesar Silvestro

Diante dos novos desafios da viticultura global, algumas variedades de uvas menos conhecidas podem ser uma solução viável para contornar os efeitos das mudanças climáticas. Existem castas que são mais resistentes ao calor, e é bastante provável que seus nomes comecem a surgir cada vez mais nos rótulos.

As mudanças de temperatura, muitas vezes imprevisíveis, podem fazer com que determinada uva passe a não ter mais a mesma qualidade em algumas regiões, ou também que se adapte muito bem a outras.

No Brasil, por exemplo, a safra de 2025 foi antecipada cerca de 15 dias em relação ao período normal por conta do calor extremo. Bem diferente do ano passado, quando o excesso de chuvas afetou todo o Rio Grande do Sul causando estragos não só nos vinhedos, mas em cidades inteiras.

Na teoria, ter pouca chuva no período da colheita é muito positivo, mas o calor acima do normal traz um outro tipo de desafio para os produtores.

Ricardo Morari, enólogo da Cooperativa Vinícola Garibaldi, explica que o clima no geral foi muito bom, com excelente amplitude térmica, e a safra 2025 apresentou um rendimento acima do esperado. No entanto, o calor acabou forçando uma colheita acelerada. “Foi uma vindima bastante desafiadora, exigindo que fossem colhidos grandes volumes em um pequeno espaço de tempo”, comenta.

O cenário de pouca chuva e noites com temperatura baixa é ótimo para preservar a acidez e o frescor das cepas brancas, usadas principalmente na elaboração de espumantes. Já para as variedades tintas, a condição de tempo seco com temperaturas altas favorece a maturação tanto de açúcares como a fenólica, o que pode resultar em vinhos mais alcoólicos. Por isso é  importante colher no tempo certo.

Novas alternativas

Uma das alternativas pensadas pelos produtores brasileiros para enfrentar essas condições climáticas é o plantio de variedades mais resistentes ao calor e à seca. Na Cooperativa Vinícola Garibaldi, na Serra Gaúcha, é feito um trabalho com mais de 50 variedades em um vinhedo experimental cujo objetivo é identificar as uvas mais adaptáveis ao terroir e ao novo clima.

Na safra de 2025, além das cepas tradicionais, como Chardonnay e Pinot Noir, destaca-se também a colheita de duas uvas pouco conhecidas, como a Irsai Oliver e a Ribuele. Ambas foram aprovadas no período de testes de cultivo, e agora farão sua estreia em escala industrial.

Outra casta que deu o que falar foi a Pálava, vinificada no ano passado resultando em um vinho bastante agradável. O rótulo VG Garibaldi Pálava foi elaborado a partir do trabalho de pesquisa desenvolvido no vinhedo experimental e teve uma excelente aceitação no mercado, principalmente pelos novos consumidores da bebida.

Originária da República Tcheca, a Pálava é um cruzamento das cultivares Traminer e Müller Thurgau. É uma uva muito intensa de aromas, com notas marcantes de frutas de caroço, como pêssego e nectarina, e toques sutis de rosas. Na boca, traz uma acidez gostosa, e seu vinho é muito fácil de apreciar. Ideal para ser consumida nos dias mais quentes, à beira da piscina, na praia ou em festas, lembra um pouco a Gewüstraminer e harmoniza tão bem quanto ela com comidas mais condimentadas.

De Pálava a Ribuele: uvas mais resistentes ao calor chegaram à Serra Gaúcha

O vinho VG Garibaldi Pálava foi feito a partir de pesquisas desenvolvidas no vinhedo experimental . Crédito: Cesar Silvestro

No total, a cooperativa possui quatro hectares com variedades sendo testadas, todas oriundas de diferentes países da Europa. A ideia é identificar a adaptação ao clima e também o potencial enológico dessas uvas, considerando sua resistência a doenças, sua produtividade adequada e ainda as demandas mercadológicas. “Estamos em processos avançados de análise para o lançamento de novos rótulos a partir dos bons resultados em microvinificações dessas variedades, a exemplo do Pálava, que passou por diversos processos antes de ser apresentado ao mercado”, explica Morari.

Existem 17 variedades de uvas em processo de microvinificação, e a convite da Cooperativa Vinícola Garibaldi tive a oportunidade de degustar amostras, tanto brancas como tintas. Algumas foram pensadas para blends, como a Pinot Kors, alternativa para os espumantes de Pinot Noir (casta conhecida por certa dificuldade de cultivo), e outras, como a Fleurtai e a Sorelli, são uvas brancas com excelente frescor.

De Pálava a Ribuele: uvas mais resistentes ao calor chegaram à Serra Gaúcha

Novas variedades de uvas já estão em processo de microvinificação. Crédito: Cesar Silvestro

A intenção é que, com um projeto de vinificação definido, outros cooperados passem também a cultivar essas novas uvas, a exemplo da Pálava que já tem dois hectares destinados ao seu plantio. A primeira safra foi de seis toneladas, e esse número deve aumentar nos próximos anos, assim como as novas variedades validadas.

Um dos produtores é o cooperado João Paulo Berra, que aprova a iniciativa e a vê como um facilitador. “A iniciativa da cooperativa em buscar novas variedades é muito boa, pois foge um pouco das convencionais que já são tradição aqui, uma vez que no mundo existem tantas com bom potencial, como é o caso da Pálava", constata João.

Em breve, rótulos elaborados com essas novas uvas serão lançados pela cooperativa - alguns deles previstos para integrar a linha VG, que chegará aos consumidores com valores a partir de R$ 80 a garrafa.

A colunista viajou a convite da Cooperativa Vinícola Garibaldi. 

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Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de HZ.

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