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Crime ambiental

Como a criação ilegal de pássaros silvestres ameaça o meio ambiente no ES

Mais de 3 mil aves de espécies diferentes foram resgatadas em 2025 pela Polícia Militar Ambiental do Espírito Santo; confira a lista das mais ameaçadas de extinção
Carol Leal

Publicado em 

01 abr 2026 às 16:56

Publicado em 01 de Abril de 2026 às 16:56

Diversas espécies de pássaros são ameaçadas pela criação ilegal em cativeiro no ES
Diversas espécies de pássaros são ameaçadas pela criação ilegal em cativeiro no ES Crédito: Montagem A Gazeta | Divulgação Amoaves
Trinca-ferro, Coleirinho e até Bem-te-vi são algumas das espécies facilmente encontradas em gaiolas nas casas brasileiras. Estes e tantos outros pássaros são alvos de um crime que chama a atenção no Espírito Santo. Durante o ano de 2025, a Polícia Militar Ambiental apreendeu mais de 3 mil aves silvestres mantidas em cativeiros ilegais em todo o Estado. Já no início de 2026, entre janeiro e fevereiro, outros 187 animais foram resgatados.
Muitos destes fazem parte da Lista de Espécies Ameaçadas do Espírito Santo, divulgada pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Entre as 144 espécies catalogadas, 31 estão classificadas como Vulneráveis (VU), quando há redução da população; 65 estão Em Perigo (EN), com risco elevado de extinção; e 48 se encontram em Perigo Crítico (CR), última categoria antes da extinção.
“As espécies que mais nos preocupam são aquelas que possuem algum grau de vulnerabilidade, como as aves conhecidas como Trinca-ferro, Papagaio-chauá, Curió e Catatau. Há um aumento da chegada desses animais ao Centro de Reintrodução de Animais Selvagens (Cereias), em Aracruz, e ao Centro de Triagem do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na Serra”, explica o Iema.
Todo o meio ambiente é prejudicado por esse crime. Muitas dessas aves desempenham papéis importantes na natureza, como a dispersão de sementes e o controle de insetos, e a ausência pode afetar o equilíbrio dos ecossistemas. É o que explica o biólogo especialista em aves José Nilton da Silva, da Universidade Federal do Espírito Santo.
A maneira mais ética e sustentável de apreciar a beleza e o canto das aves é preservando os habitats, plantando árvores, promovendo a conscientização ambiental e garantindo que permaneçam livres como parte fundamental dos ecossistemas naturais
José Nilton da Silva - Biólogo e ornitólogo, doutor em Conservação e pós-doutorando em Biologia Animal pela Ufes

Aves ameaçadas 

De acordo com o Iema, 5.787 pássaros de 17 espécies diferentes — sendo 2.643 coleiros — chegaram ao Centro de Triagem do Ibama e ao Cereias nos anos de 2024 e 2025. Entre eles, muitos eram mantidos em cativeiro ilegal. Confira a lista das principais espécies:

01

Leodério Velten | Divulgação Amoaves

Trinca-ferro (VU)

Conhecido pelo canto marcante e por diversos nomes regionais, como Bico-de-ferro, Tempera-viola e Verdão. Essa espécie vive em florestas e está classificada como Vulnerável. Total de resgates entre 2024 e 2025: 735.

02

Rosfutsal | Divulgação Amoaves

Periquitão-maracanã

Vive em bandos ruidosos e faz ninho em buracos de árvores. Bastante procurado no tráfico de animais silvestres, assim como outras aves da família dos papagaios. Total de resgates entre 2024 e 2025: 187.

03

Leidemara Busato | Divulgação Amoaves

Papagaio-chauá (VU)

Ave típica da Mata Atlântica com testa vermelha. Ajuda na dispersão de sementes, sofre também com a perda de habitat. Total de resgates entre 2024 e 2025: 311.

04

Adalberto Ramaldes | Divulgação Amoaves

Periquito-rei

Também chamado de Jandaia-coquinho, é típico do cerrado e faz ninhos em buracos e cupinzeiros. Apesar de não estar em risco de extinção, é alvo frequente do tráfico de fauna e sofre com a perda de habitat. Total de resgates entre 2024 e 2025: 234.

05

Rosfutsal | Divulgação Amoaves

Baiano

Pode ser chamado de papa-capim É uma pequena ave que vive em áreas abertas, muito visada pelo tráfico devido ao canto característico. Total de resgates entre 2024 e 2025: 227.

06

Leidemara Busato | Divulgação Amoaves

Coleiro

Pertencente ao grupo dos papa-capins. Também chamado de coleirinho, papa-arroz ou papa-capim-de-coleira, é abundante em áreas agrícolas. O macho tem uma "coleira" branca no pescoço. Total de resgates entre 2024 e 2025: 2.643.

07

Rosfutsal | Divulgação Amoaves

Papa-capim-de-costas-cinza

Pertence ao mesmo grupo do Coleiro e do Baiano. Costuma ser capturado ilegalmente devido ao comportamento territorial e canto durante a reprodução. Total de resgates entre 2024 e 2025: 118.

08

Leodério Velten | Divulgação Amoaves

Curió (CR)

Em Perigo Crítico, é um dos principais alvos devido ao canto usado na natureza para defender território. Vive perto de matas e restingas. Total de resgates entre 2024 e 2025: 163.

09

Rosfutsal | Divulgação Amoaves

Papagaio-do-mangue

Encontrado em florestas úmidas e manguezais, sofre com a captura para domesticação. Alimenta-se de frutos, grãos e flores e ajuda na distribuição de sementes na natureza. Também chamado de Curica. Total de resgates entre 2024 e 2025: 131.

10

Leodério Velten | Divulgação Amoaves

Corrupião

Ave de cores vibrantes e canto forte, comum em áreas secas e arborizadas, como na Caatinga. Pode ser chamado de Concriz. Total de resgates entre 2024 e 2025: 124.

11

Adalberto Ramaldes | Divulgação Amoaves

Sanhaço-cinzento

Comum em cidades, zonas rurais e matas, é um importante dispersor de sementes. Frequentemente capturado ilegalmente para ser mantido em gaiolas. Total de resgates entre 2024 e 2025: 102.

12

Rosfutsal | Divulgação Amoaves

Catatau (CR)

Também chamada de Pixoxó, é uma espécie da Mata Atlântica classificada em Perigo Crítico de extinção devido à perda de habitat e tráfico de aves canoras. Total de resgates entre 2024 e 2025: 97.

13

Leodério Velten | Divulgação Amoaves

Pássaro-preto

Conhecido por nomes como Graúna, Melro e Assum-preto. Destaca-se pelo canto variado e sofre com a diminuição da espécie no Espírito Santo por causa da captura ilegal. Total de resgates entre 2024 e 2025: 94.

14

Leodério Velten | Divulgação Amoaves

Tiziu

Conhecido pela plumagem escura com brilho azulado. O macho é famoso por saltar enquanto canta, o que atrai a atenção de capturadores no período reprodutivo. Total de resgates entre 2024 e 2025: 91.

15

Rosfutsal | Divulgação Amoaves

Sabiá-laranjeira

Uma das aves mais populares do Brasil, essencial para a saúde das florestas e áreas rurais, mas geralmente mantida em gaiolas. O macho se destaca pelo canto. Total de resgates entre 2024 e 2025: 80.

16

Rosfutsal | Divulgação Amoaves

Bem-te-vi

Facilmente reconhecido pelo canto que soa como o nome da própria espécie. É uma das aves mais adaptadas ao ambiente urbano, porém costuma ser capturada para viver em cativeiro. Total de resgates entre 2024 e 2025: 71.

17

Leodério Velten | Divulgação Amoaves

Canário-da-terra

Comum em campos e jardins, é alvo do tráfico de animais devido ao canto melodioso e comportamento territorial. Total de resgates entre 2024 e 2025: 379.

Quando vira crime?

A legislação ambiental brasileira estabelece que a criação de animais silvestres só pode ocorrer com controle do poder público, já que a fauna é um bem de propriedade do Estado. Logo, a captura, manutenção, transporte, comercialização ou reprodução de aves silvestres sem licença configura infração administrativa e crime ambiental, o que pode gerar desde multas até responsabilização penal.
Para criar pássaros silvestres de forma legal, o primeiro passo é fazer uma inscrição como pessoa física no Cadastro Técnico Federal (CTF/APP), no site do Ibama, na categoria criador amador de passeriformes. Depois é preciso procurar o órgão ambiental do seu estado — no caso do Espírito Santo, o Iema — para validar o registro por meio do Sistema de Controle e Monitoramento da Atividade de Criação Amadora de Pássaros (SisPass).
Com esse cadastro, as aves silvestres podem ser registradas e monitoradas, permitindo a criação legalizada em cativeiro. Mas atenção: esse registro não permite a venda dos animais. Quem deseja ter um criadouro para comercialização de espécies da fauna brasileira deve, após registro no CTF, se cadastrar no Sistema Nacional de Gestão da Fauna Silvestre (Sisfauna).

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