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“Aqui é uma fábrica de sonhos": projetos de ressocialização transformam vidas de internos no Complexo Penitenciário de Viana

Na Penitenciária de Segurança Média 2, primeira do país voltada à população LGBTQIA+, iniciativas que envolvem costura, crochê e rádio ressignificam o cumprimento da pena
Samara Ramos

Publicado em 

03 out 2025 às 14:42

Publicado em 03 de Outubro de 2025 às 14:42

Residentes na Estação Purpurina, rádio interna no Complexo Penitenciário de Viana
Residentes na Estação Purpurina, rádio interna no Complexo Penitenciário de Viana Crédito: Secretaria de Justiça do ES
Embora o sistema prisional carregue muitos estigmas, ele também é palco de iniciativas que oferecem novas oportunidades de vida. Na quinta-feira (25), alunos do 28º curso de Residência em Jornalismo visitaram a Penitenciária de Segurança Média 2 (PSME2), em Viana, e conheceram de perto os projetos de ressocialização desenvolvidos dentro da unidade, que é a primeira penitenciária do país voltada exclusivamente para a população LGBTQIA+.
Atualmente estão abrigados na PSME2 cerca de 350 custodiados. Durante a visita, os estudantes foram acompanhados pelo secretário de Estado da Justiça, Rafael Pacheco, e pelo diretor da unidade, Gabriel Fitaroni Neves, que apresentaram a estrutura da penitenciária e as ações voltadas à reintegração social.
A unidade conta com quatro projetos de ressocialização em andamento, como "Fazendo Arte" e "Costurando um Mundo Melhor", que buscam incentivar a criatividade, a qualificação profissional e o empreendedorismo entre os internos.
Segundo Rafael Pacheco, é necessário auxiliar para que os internos consigam ter uma nova perspectiva. “Essas pessoas cometeram crimes, foram presas, processadas e condenadas. O julgamento acabou. A gente precisa inaugurar um novo momento. Não faz sentido eu continuar tratando ela [interna] por aquilo que ela fez há cinco, dez anos atrás”.
A unidade também conta com espaços voltados para fortalecer a autoestima de quem passa por lá. Sandrete, uma das internas e cabeleireira no salão de beleza da unidade, explicou que o local não é apenas uma oportunidade de melhorar a aparência, mas também de se sentir parte da sociedade. Ela ainda destacou que as ações contribuíram para reduzir o índice de automutilação na penitenciária. “Porque isso daqui, além de trazer o melhor para nós, o índice de mutilação e suicídio acabou”.

“Eu precisei ser presa para ter o direito de ser quem eu sou"

Residentes visitam a sala do projeto Fazendo Arte, no Complexo Penitenciário em Viana
Residentes visitam o projeto Fazendo Arte, no Complexo Penitenciário de Viana Crédito: Secretaria de Justiça do ES
Um dos projetos realizados dentro da Penitenciária de Segurança Média 2 é o Fazendo Arte, voltado para a costura de artigos para pets, como camas e roupas, ecobags, além de bolsas feitas com banners publicitários.
Alejandra, que participa da iniciativa há dois anos, relembrou um encontro com Phil Maguire, CEO da Prison Radio Association, e uma professora da Universidade de Cambridge. Interessados em compreender a proposta de comunicação da rádio, eles fizeram questionamentos sobre a organização do conteúdo e a relação entre o projeto e as internas. Em determinado momento, a professora perguntou o que significava para elas ter um espaço prisional dedicado à população LGBTQIA+. Alejandra então respondeu: “Eu precisei ser presa para ter o direito de ser quem eu sou.”
Sobre o projeto Fazendo Arte, Alejandra destacou a liberdade criativa. “Fazendo Arte, que era um projeto de artigo pet, se tornou um projeto de criatividade. Então aqui a gente consegue produzir tudo o que a imaginação permite, que é o interessante da moda, da costura, a gente não tem limitações”, explicou.
Bolsas feitas com banners publicitários pelos detentos no projeto Fazendo Arte
Bolsas feitas com banners publicitários no projeto Fazendo Arte Crédito: Samara Ramos
Laila, outra interna que também participa do projeto, contou que antes não sabia costurar e aprendeu graças à iniciativa. “Eu adquiri a experiência aqui de aprender a costurar. Hoje, eu sei praticamente tudo”, ressaltou.
Recentemente, o projeto passou a confeccionar coletes adaptados para as novas câmeras corporais adquiridas pela Secretaria da Justiça (Sejus). As câmeras, fixadas ao uniforme dos policiais penais, registram em audiovisual toda a atividade realizada durante o expediente e têm como objetivo garantir mais transparência e segurança nas ações. Produzidos pelas internas da Penitenciária de Segurança Média 2 (PSME2), os coletes permitem acoplar o equipamento ao corpo, destinados à Polícia Penal do Espírito Santo (PPES).
Além desse projeto de costura, a unidade também possui o Costurando um Mundo Melhor, no qual os internos produzem, por meio do crochê, bonecos, bolsas e nécessaires.

“A criatividade transborda”

Da esquerda para a direita: Secretário de Justiça do ES, Diretor da PSME2 e Mirela, locutora na Estação Purpurina
Da esquerda para a direita: Secretário de Justiça do ES, Rafael Pacheco, Diretor da PSME2, Gabriel Fitaroni e Mirela, interna e locutora da Estação Purpurina Crédito: Samara Ramos
Outro projeto realizado dentro da unidade prisional é a Estação Purpurina. A rádio, inaugurada no final de julho de 2024, é a primeira do Complexo Prisional de Viana. A ideia surgiu na gestão anterior da secretaria e, na programação atual, mescla conteúdos de entretenimento, serviço e informação.
A rádio funciona das 7h às 18h e é transmitida para toda a unidade. O nome foi escolhido em uma votação entre os internos, que tiveram a oportunidade de personalizar a iniciativa, segundo o diretor Gabriel Fitaroni. Para o secretário de Justiça, o projeto é também um espaço de criação. “A nossa ideia aqui, por exemplo, a criatividade transborda”, explicou.
O estúdio conta com equipamentos de som, microfones e isolamento acústico. A rádio é comandada por dois internos, Mirela e Henrique. Ela na locução, ele na mesa de som. Mirela explicou o processo de escolha dos conteúdos. “A gente se reúne, discute ideias, passa para o nosso psicólogo, depois isso é levado para a direção, que traz tudo liberado”.
Ainda de acordo com Mirela, a rádio trouxe uma grande diferença para o dia a dia dos internos. Além de promover conexão e entretenimento, também serve como forma de relaxamento.
“Isso tudo mudou a minha vida aqui dentro e com certeza mudou a minha vida lá fora. Hoje eu sou uma pessoa feliz dentro de um lugar que as pessoas falam que a gente não é feliz.”, destacou.
A rádio, assim como os outros projetos, possibilitou que os internos vivessem novas experiências e sonhassem com uma vida melhor após o cárcere. Para Mirela, a penitenciária se tornou uma verdadeira fábrica de sonhos.
“Tem pessoas lá nas galerias que estão escutando e também querem se preparar. Eu acredito que aqui dentro é uma fábrica de sonhos. Porque as pessoas vêm presas e, quando saem daqui, todo mundo está sonhando com alguma coisa. A gente está aqui para se ressocializar”, contou.
Mirela ainda revelou o seu sonho atual: ser radialista. “Hoje eu quero ser apresentadora. Hoje eu quero isso porque eu tinha vergonha. Hoje eu não tenho mais vergonha”.
A rádio faz parte de um projeto da Secretaria da Justiça que prevê a instalação de outros estúdios em unidades prisionais do Estado. Até o final do ano, segundo o secretário Rafael Pacheco, a meta é ter 37 rádios em funcionamento, contemplando todas as unidades.
*Esta matéria é uma produção da aluna Samara Ramos do 28º Curso de Residência em Jornalismo, sob orientação da editora de conteúdo Mariana Gotardo.

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