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É psicóloga, doutora e postdoc pela PUC-SP, especialista em Saúde Mental e Direitos das Mulheres

'Adolescência' não é uma série policial: é um espelho

E o que vemos nele exige mais do que empatia consciente e crítica: exige ação. Urgente, coletiva e profunda

  • Gina Strozzi É psicóloga, doutora e postdoc pela PUC-SP, especialista em Saúde Mental e Direitos das Mulheres
Publicado em 27/03/2025 às 11h35

O que transforma um garoto franzino, de voz fina e ainda apegado ao seu bicho de pelúcia, em alguém capaz de atravessar uma escola com uma faca na mochila? A série "Adolescência" não nos oferece respostas prontas. Ela faz algo melhor: nos obriga a olhar de frente o buraco onde estamos todos metidos — sociedade, famílias, governos, escolas, plataformas digitais — enquanto fingimos que está tudo bem, porque algo pior não nos assolou, por enquanto.

Jamie não é um monstro. Essa talvez seja a afirmação mais incômoda que a série nos obriga a digerir. Não há lar desfeito, violência doméstica ou miséria que o empurre para o abismo. Há, no entanto, algo mais silencioso, viscoso, difícil de atravessar e insidioso: uma sensação de desimportância, de rejeição, de inadequação. Uma dor que ele nunca aprendeu a nomear. Uma tristeza que se tornou ódio, cólera negra e tormenta afetiva. E um algoritmo que, em vez de oferecer socorro, lhe estende uma arma metafórica — ou literal, e porque não dizer, letal.

Estamos diante do retrato de uma geração de meninos que crescem emocionalmente analfabetos, carentes de vocabulário interno, sem mapas da própria miséria sobre si, enquanto passam horas conectados a fóruns e influenciadores que lhes prometem explicações fáceis para seus fracassos: “a culpa é delas”. A teoria é sedutora: 80% das mulheres só querem 20% dos homens. O resto, os preteridos e inviabilizados, vivem condenados ao limbo da invisibilidade na zona do esquecimento. Jamie, como tantos outros, encontra aí uma lógica reconfortante — e venenosa.

A série lança luz sobre um fenômeno que muitos adultos ainda fingem não ver: a machosfera digital, um subterrâneo de masculinidade tóxica cultivado no escuro dos quartos e nutrido por plataformas que preferem o engajamento à ética. São bolhas onde o ressentimento vira identidade, e o ódio, comunidade. A radicalização de meninos virou entretenimento algorítmico.

Mas a denúncia da série vai além do “incel”. Ela cutuca a ferida da nossa ausência. O olhar perdido do pai, que ama, mas não vê. Uma penumbra dada como ensaio do pertencimento negado e experimentado pelo filho. A escola, que ensina trigonometria, mas não oferece um vocabulário sobre os porões onde passam nossas sensações, sentimentos, intuições, percepções e volições. A polícia, que tenta decifrar emojis como quem lê hieróglifos. Todos estão um passo atrás da dor que se arma no silêncio, no território do abandono.

E então vem o feminicídio. Não como ápice de um enredo, mas como resultado trágico de um processo que ninguém quis enfrentar. A morte da menina é também a morte de um pacto civilizatório: o que prometia proteger as crianças, educar os adolescentes e amparar os que caem. Jamie é um menino que caiu. Mas não teve rede.

Owen Cooper em cena da série 'Adolescência'
Owen Cooper em cena da série 'Adolescência'. Crédito: Courtesy of Netflix

A obra é um soco no estômago, porque nos mostra que não basta ensinar meninos a não matar. Precisamos ensiná-los a sentir, a fracassar, a suportar rejeições sem convertê-las em vingança e reatividades regredidas e desenfreadas. Precisamos alfabetizá-los emocionalmente, oferecer outros caminhos para além da performance dura e competitiva. Criar, em vez de guerreiros, homens inteiros.

Pais e mães precisam aprender a enxergar os filhos para além do comportamento de meninos e meninas — olhar para o que não é dito, para o que se esconde atrás do silêncio, da irritação, do jogar as coisas no chão, do sono persistente e do isolamento. As sombras nos trazem mensagens, leiamos todas com prática de observância incansável, atenta e carinhosa. Sim! O afeto, e a disponibilidade de sentir junto, é o que educa para o vínculo, e ainda é a mais poderosa ferramenta de prevenção.

Por fim, "Adolescência" não é uma série policial da Netflix. É um espelho. E o que vemos nele exige mais do que empatia consciente e crítica: exige ação. Urgente, coletiva e profunda.

Um glossário para ler esta coluna e assistir a série:

  • Incel – “celibatário involuntário”; jovens que culpam as mulheres por sua rejeição e, em muitos casos, propagam ódio.
  • Machosfera – submundo digital onde homens compartilham discursos misóginos e masculinidade tóxica.
  • 80/20 – teoria que afirma que 80% das mulheres só desejam 20% dos homens, alimentando ressentimento masculino.
  • Algoritmo – sistema das redes que reforça bolhas de conteúdo, inclusive discursos de ódio.
  • Red pill – termo usado para descrever a suposta “realidade” revelada sobre o feminismo e as mulheres, segundo grupos antifeministas.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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