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É doutor em Filosofia pela Ufes e professor de Filosofia do Ifes – campus Venda Nova do Imigrante

“Brain rot”: a podridão cerebral de uma vida iluminada pelo brilho das telas

Vale destacar que somos uma sociedade cada vez mais acelerada. Desse modo, poderíamos reformular um antigo ditado popular da seguinte forma: “Diga-me como utilizas teu tempo e te direi quem és”

  • Edson Kretle dos Santos É doutor em Filosofia pela Ufes e professor de Filosofia do Ifes – campus Venda Nova do Imigrante
Publicado em 23/02/2025 às 10h00

O dicionário de Oxford, baseado na opinião de especialistas, anunciou que a palavra do ano de 2024 foi "brain rot" (“podridão cerebral”). Mas por que "podridão cerebral"? Essa suposta degradação cerebral ou intelectual é atribuída ao consumo excessivo de conteúdo de baixa qualidade, considerado trivial ou pouco desafiador que experimentamos na era digital.

Historicamente, o termo “podridão cerebral” foi cunhado pelo estadunidense Henry David Thoreau (1817-1862) em sua obra Walden, na qual o autor defende a simplicidade da vida no campo como um contraponto à civilização industrial, que menospreza ideias complexas e visa o esforço metal mínimo. Assim, ele nos diz: "enquanto a Inglaterra se esforça para curar a podridão da batata, nenhum esforço fará para curar a podridão cerebral — que prevalece muito mais ampla e fatalmente?"

Um dos sinais da podridão cerebral é o vício em redes sociais. Quem nunca se pegou em uma rolagem automática do feed sem ao menos prestar atenção no que é mostrado? O resultado é que esse ritmo acelerado da vida digital sobrecarrega o sistema nervoso causando a intensa ansiedade e estresse. Do ponto de vista social e político, as democracias estão ameaçadas mundo afora pela incapacidade de pensamento de grande parte da população (Hannah Arendt).

Segundo o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) "a raiz da infelicidade humana está na comparação". Essa reflexão é especialmente pertinente no contexto atual, em que o uso excessivo das telas, sobretudo, das redes sociais, tem nos tornado cada vez mais infelizes com o que somos e temos. Isso ocorre porque baseamos nossa vida na “realidade instagramável”, um recorte da idealizado da existência alheia, frequentemente exibido por amigos e influenciadores digitais, que nos leva a comparações prejudiciais e irreais.

À vista disso, vale também destacar que somos uma sociedade cada vez mais acelerada. Desse modo, poderíamos reformular um antigo ditado popular da seguinte forma: “Diga-me como utilizas teu tempo e te direi quem és”.

Como nos autoconstruir e nos realizar, se o pouco tempo que temos é ocupado com coisas que não edificam, mas apenas nos mantêm distraídos e eternos fugitivos de nós mesmos?

Nesse contexto, é oportuno relacionar os desafios do presente com as ideias do sociólogo alemão Hartmut Rosa sobre a aceleração social. Segundo ele, o fenômeno da aceleração pode ser dividido em três aspectos: 1º) aceleração técnica — o uso de aparatos tecnológicos para encurtar o tempo gasto em atividades como transporte, produção e comunicação; 2º) aceleração das transformações sociais — o aumento do ritmo das transformações nas estruturas políticas, culturais, religiosas e científicas; 3º) aceleração do ritmo de vida — o aumento da frequência de ações e vivências por unidade de tempo.

Isso nos leva à sensação de falta de tempo, algo muito comum hoje em dia. Os dias ainda possuem 24 horas, mas, em nossa percepção, parecem ter apenas 18 horas — ou, para alguns, até menos. Portanto, não são os dias que estão mais curtos, mas sim que eles (dias) estão mais atarefados como nunca na história.

No contexto em que somos afetados por um turbilhão de informações, torna-se cada vez mais difícil o ser humano se esculpir como pessoa. Somos moldados pelas cobranças e metas impostas pelos superiores e, se não bastasse, como carrascos de nós mesmos, dobramos esses objetivos e nos esquecemos de que somos seres limitados. Admitir isso é o começo da cura para a sociedade da aceleração e do cansaço (Byung-Chul Han).

É claro que tudo na vida exige planejamento e objetivos, mas é essencial questionar um estilo de vida que tem apenas potencializado doenças como a depressão, a ansiedade e a Síndrome de Burnout. Portanto, enquanto sociedade, as questões centrais sobre esse tema são: como puxar o freio de mão e refletir sobre o que nos tornamos? Como nos autoconstruir e nos realizar, se esse pouco tempo que temos é ocupado com coisas que não edificam, mas apenas nos mantêm distraídos e eternos fugitivos de nós mesmos?

Quando trocamos o brilho do olhar pelo brilho das telas é um grande sinal de que algo na existência humana não está nada bem.

Talvez tenha chegado o tempo de admitir uma provocação inconveniente: será que somos semideuses e super-heróis capazes de lidar com as exigências desse tempo acelerado? Vivemos cobrando uns dos outros e de nós mesmos uma excelente atuação em tudo: academias, escolas, dietas, trabalho, relacionamentos etc. Todos os bons resultados são oferendas e preces aos deuses Facebook, Instagram, Tik Tok, X etc.

Jovem usa celular
Jovem usa celular . Crédito: Pixabay

Diante das (in)certezas deste tempo em que vivemos, podemos resgatar o alerta do filósofo Aristóteles. Ele nos ensina que a verdadeira serenidade somente é alcançada na intimidade conosco mesmos, por meio da reflexão. Isso não significa que a felicidade esteja restrita ao isolamento, mas que o autoconhecimento é um caminho essencial para a busca da paz interior e para o resgate do nosso cérebro e de relações saudáveis.

Em sintonia com isso, especialistas orientam sobre a necessidade de estabelecer um limite para o tempo de tela. Nesse sentido, uma boa dica é silenciar aplicativos e notificações que causam distração. Portanto, precisamos resgatar antigos hábitos não digitais, tais como: a prática de algum esporte, ouvir boas músicas, praticar a meditação, ler livros, “jogar conversa fora” com os amigos etc. Uma vida mais offline vale a pena! Experimente.

Assim sendo, o autoconhecimento e uma vida menos online são caminhos que contribuem para uma vida mais potente e com menos “degeneração cerebral”. Por último, e não menos importante, precisamos pensar em uma felicidade mais coletiva e menos individualista. Essa é uma das alternativas para atenuarmos os impactos negativos de uma sociedade dominada pelas big techs.

Por fim, nos resta uma terrível certeza: quando trocamos o brilho do olhar pelo brilho das telas, isso é um grande sinal de que algo na existência humana não está nada bem.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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