A mancha escura e fétida que provoca incomodo em quem frequenta e passa pela Guarderia e áreas vizinhas, em Vitória, é apenas a camada impossível de deixar de ser vista do descaso como as águas capixabas são há muito tratadas. Outras existem e são desconsideradas porque sucessivos governos do estado e dos municípios se acostumaram com a zona de conforto diante do quase total silêncio por parte de vozes que deveriam representar a sociedade.
Nossas principais bacias hidrográficas que desaguam no Atlântico foram afetadas por atividades econômicas identificadas como portadoras de progresso. A devastação da Mata Atlântica para produzir café; a exploração de mármore e granito; a extração de minério de ferro em Minas e sua exportação por portos capixabas; a implantação da monocultura intensiva do eucalipto, dentre outros, são vetores crescentes de contaminação de cursos d'água que acabam por desaguar na costa capixaba.
Desaguar que provoca assoreamentos e contaminações que afetam as correntes marinhas dessa costa. Correntes crescentemente afetadas por aterros de mangues em áreas urbanas e pela construção de portos que se intensificou a partir da década de 1960 com o advento das instalações em Tubarão.
Correntes modificadas com consequências diretas e a olhos vistos em praias do litoral. A 'solução' adotada sempre foi a de evitar a identificação dos responsáveis pelo problema e a de resolvê-lo da forma mais rápida e menos custosa para o poder público. Chamada de engordamento, a 'solução' começou pela Praia de Camburi, em Vitória, na década de 1970, e desde então vem se sucedendo em áreas do litoral afetadas pela construção de portos de águas profundas.
Além de Vitória, Vila Velha e Serra, Fundão e Guarapari, na Grande Vitória, outros municípios no litoral são afetados pelas mudanças nas correntes oceânicas provocadas pela construção e ampliação de píeres por parte de grandes projetos industriais. As consequências dessas ações de empresas continuam sendo negligenciadas ou minimizadas nas análises de impacto ambiental. As mitigações previstas, quando tal aconteceu, sempre estiveram longe de cobrir os custos socioambientais provocados por essas obras saudadas por governantes em nome do crescimento econômico.
Custos socioambientais – dos provocados pela devastação da Mata Atlântica e sua diversidade natural e social, até o resultante da implantação e ampliação dos Grandes Projetos Industriais – denunciados por homens públicos como Margarido Torres, nos anos 1910, e Augusto Ruschi, a partir dos anos 1940 até sua morte. Custos socioambientais analisados em relatórios técnicos de institutos governamentais e registrados em inúmeros trabalhos acadêmicos, em sua grande maioria financiados com recursos públicos.
Inexiste falta de informação ou de consciência para com o descaso como são tratados o ar, o solo e as águas - todos interligados e com fontes comuns – ao longo dos último século e agravados, intensificados e diversificados desde os anos 1970, no Espírito Santo. Informação e consciências insuficientes para gerar sensibilidade por partes de governantes e formadores de opinião.
Sensibilidade que gere reações para muito além de projetos e programas construídos para deixar tudo como sempre foi. Sempre foi e continua sendo o jogo de faz de contas que algo está sendo feito. Faz de contas muito bem protegidos por campanhas publicitárias que colocam governantes omissos e empresas responsáveis como se defensores da sustentabilidade socioambiental fossem.
Omissões governamentais e irresponsabilidades de empresas que resultam na crescente distopia que paralisa parte considerável da população, principalmente dos mais jovens e dos mais idosos, e que gera sentimento de que no passado o futuro era melhor. Omissões e irresponsabilidades que tiram direitos de melhor relação entre humanos e demais seres viventes no presente e sinalizam para uma deterioração crescente desses direitos para gerações futuras.