Dos efeitos negativos da distopia alimentada constantemente pelo que acontece mundo afora com a cobertura em tempo real pelos grandes noticiários e pelas redes sociais, destaque para o da apatia. Venha ela sob a forma de insensibilidade ou indiferença; apresente-se ela como estado d’alma insuscetível de comoção ou interesse.
Insensibilidade ou indiferença gerada e alimentada pelo volume e intensidade de informações que deixam pouca margem a dúvidas com relação à insustentabilidade socioambiental e à perspectiva de dias melhores para a humanidade. Atrocidades se espalham sob formas diversas. Como o recente ataque ao Irã e o genocídio patrocinado pela dupla Estados Unidos / Israel em Gaza; a expropriação de recursos naturais através de intervenções militares, como a dos estadunidenses na Venezuela; o bloqueio injustificável como o que ianques promovem crescentemente a Cuba desde os anos 1960.
No plano nacional, atrocidades são naturalizadas através da forma fria como são relatadas pelos meios de comunicação de massa e pela redes sociais como se normais fossem. Frieza que leva à indiferença de muitos diante do crescente feminicídio; da omissão dos poderes no enfrentamento à exarcebada concentração de rendas e propriedades; dos desvios de recursos públicos para a continuada sangria do pagamento dos serviços da dívida em detrimento de investimentos sociais em áreas essenciais como saúde, educação e saneamento básico.
Em nível estadual, é quase inexistente o debate sobre a forma como o governo estadual se propõe a conceder para exploração privada áreas destinadas à conservação de espécies da flora e fauna. Quase nada se discute sobre a terceirização para agentes de fora do estado da gestão de incentivos fiscais e financeiros voltados para o desenvolvimento da ciência/tecnologia/inovação e do crescimento sustentável social e ambientalmente.
No plano local, é ensurdecedor o silêncio das autoridades municipais diante das históricas e crescentes agressões feitas ao ar por todos respirados e ao mar usado para lazer e práticas esportivas. É praticamente inexistente o debate consistente sobre o pó preto respirado e depositado bem distante de suas fontes de emissão. Falta consistência no debate para que os diagnósticos feitos em vários momentos da história recente tenham encaminhamentos técnicos para a solução efetiva do problema.
Efetividade no enfrentamento do que indicam diagnósticos e encaminhamentos técnicos que se diluem e desaparecem com propagandas enganosas de quem polui. Esses usam e abusam de engenhosos esquemas de publicidade e marketing para se apresentarem como defensores do meio ambiente e promotores da arte e cultura locais. Tudo muito barato diante das agressões socioambientais.
O mar que banha a cidade também há muito é agredido por descargas de águas poluídas. Mais recentemente essa agressão foi escancarada com manchas nas águas de praias e fétidos odores facilmente perceptíveis para quem delas se aproxima.
Por último, mas nem por isso menos importante, às diversas formas de insegurança vivenciadas por quem circula pela cidade soma-se agora aquela representada por veículos motorizados de duas rodas que transitam pelas calçadas. Nada de campanhas educativas; nada de supervisão de agentes de segurança que coíba o uso indevido desses veículos.
O que sobra, por um lado, é a sensação de insegurança para quem – principalmente para crianças e idosos – utiliza calçadas para circulação a pé. E, por outro, a impunidade de quem aterroriza e atropela aqueles que têm prioridade no uso de calçadas: os pedestres.
Se é mais difícil o enfrentamento de questões mundiais pela complexidade das questões que se apresentam nesse nível, o que acontece mais próximo do território onde se habita, trabalha e circula, pode e deve ter cobrança mais direta. Nas instâncias federal e estadual, o processo eleitoral de 2026 pode ser um bom momento para renovar a composição do Congresso Nacional e da Assembleia e questionar as desastrosas ações do governo estadual no que se refere à sustentabilidade socioambiental.
No meio do exercício de seus mandatos, autoridades municipais precisam ser cobradas diante do ensurdecedor silêncio com que reagem aos continuados e crescentes perigos do ar respirado, do mar onde se banha e das calçadas por onde se caminha.
Ensurdecedor silêncio que precisa ser quebrado com ações que estão sob sua direta alçada e com cobranças a quem de direito nas esferas estadual e federal. Ações e cobranças que precisam ser compatíveis com os facilmente publicizados conceitos de ‘cidade inteligente’, metro quadrado mais valorizado e outros do gênero.
É passada a hora de valorizar soluções técnicas de humanos que tornem a cidade melhor e mais segura para todos. É passada a hora de ter ações em nível local que priorizem menos ganhos especulativos de poucos e foquem mais no bem-estar e bem viver da maioria da população.