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América

Mais do que nunca é preciso exercitar o espírito crítico

Mais importante, o espetáculo apresentado por Bad Bunny serve para despertar todos os que habitam o continente americano para suas singularidades culturais e para a continuada exploração pelo imperialismo dos Estados Unidos

Públicado em 

19 fev 2026 às 03:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Há muito o que comemorar neste novo ano brasileiro que se inicia no pós-carnaval. Como sempre, a folia levou para as ruas a irreverência popular diante de fatos que incomodam quando noticiados pelos meios de comunicação de massa e pelas redes sociais. Cada vez mais ela é usada como instrumento de resgate de histórias – tanto aquelas que deixaram de ser contadas; quanto as mal contadas.
Brasil afora, nas ruas foram também celebradas vitórias das artes, com destaque para os sucessos internacionais do cinema nacional. Sucessos — como o de 'Ainda Estou Aqui' e 'O Agente Secreto' — construídos com base no resgate de aspectos da história brasileira. Sejam esses o arbítrio da ditadura de 1964/85; sejam eles o conluio entre as forças de repressão/extermínio e grupos econômicos.
Esse espírito crítico demonstrado nas ruas durante as celebrações de carnaval e nas telas de cinema felizmente está longe de ser uma especificidade brasileira. Mundo afora, em eventos que celebram de formas diversas a humanidade que nos une a todos, têm sido crescentes as vozes que protestam contra atrocidades que acompanham lutas de poder étnico, econômico e militar.
Destaque para o espetáculo durante o intervalo do SuperBowl, evento que celebra o final do campeonato de futebol estadunidense e que mobiliza parte considerável da população dos Estados Unidos e telespectadores mundo afora. O espetáculo deste ano, conduzido pelo cantor porto-riquenho Bad Bunny, foi além da crítica apresentada por ele quando recebeu o Prêmio Grammy 2026 por seu álbum 'Debí tirar más fotos'.
Trump critica show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl
Show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl Crédito: Jeenah Moon / Reuters/Folhapress
Se naquela ocasião o cantor foi enfático em seu protesto contra a política imigratória de Trump ('imigrantes não são animais mas humanos e americanos' e 'fora ICE'), no Superbowl ele resgatou para todos os que vivem no continente a identidade de americanos. Resgate necessário diante da contínua apropriação indébita por parte dos estadunidenses das expressões América – como se fossem eles o continente, e americano – como só quem nascesse naquela parte do território ao norte das américas fosse americano.
Mais importante, o espetáculo apresentado por Bad Bunny serve para despertar todos os que habitam o continente americano para suas singularidades culturais e para a continuada exploração pelo imperialismo dos Estados Unidos. Exploração acentuada e explicitada, para quem quiser ver, pelo governo Trump.
Exploração explicitada pela maneira como comparsas seus se apropriam da produção e exportação de petróleo venezuelano pós-sequestro do presidente Maduro. Exploração acentuada por seus novos movimentos que buscam subordinar a seus interesses países das Américas que detêm reservas de terras raras.
Tanto no caso do petróleo quanto no que diz respeito a terras raras essa exploração deve ser vista como mais uma ameaça à soberania do Brasil. Por deter reservas consideráveis desses recursos não renováveis, o país precisa se preparar para um enfrentamento que vai além do que pode ser considerado normal em negociações internacionais.
A exploração desses recursos precisa considerar fatores outros além dos que respondem à lógica financista de curto prazo. Há que levar em conta fatores socioambientais, pois a maior parte deles se encontra em territórios ocupados por povos originários e quilombolas. O relaxamento de regras já estabelecidas quanto ao licenciamento de exploração de recursos não renováveis é umas das premissas do que desejam o governo Trump e seu círculo íntimo sempre à busca de 'fazer um bom negócio'.
'Bom negócio' onde existir a oportunidade para ganhos rápidos e fáceis para poucos estadunidenses em detrimento da maioria mundo afora. Resistir a essa lógica exige mobilização para muito além das frágeis instituições que dão corpo à democracia brasileira.
Exige espírito crítico na academia, nos meios de comunicação de massa, na sociedade civil e no meio empresarial para entender que a ruptura pela qual passa a geopolítica mundial é uma ameaça e uma oportunidade. Países como o Brasil precisam se posicionar de forma distinta daquela registrada em boa parte de sua história. Ao longo dela o que prevaleceu foi a subordinação acrítica a interesses externos contrários à sua soberania política, cultural e econômica.
Posicionamento crítico que pode se inspirar na resistência e resiliência de tantos excluídos homenageados durante o carnaval e no Superbowl. Posicionamento crítico e contestatório como fazem as artes de maneira geral com relação à cultura dominante.
Cultura dominante que busca sufocar a diversidade e pluralidade que caracterizam nossas riquezas socioambientais. Cultura dominante dirigida por poucos que optam por entregar essas riquezas para o imperialismo estadunidense e continuar se beneficiando com esse entreguismo.
Para além da racionalidade objetivada que geralmente permeia os mundos acadêmico, empresarial e das comunicações, o momento exige desses segmentos da sociedade brasileira resistência à versão ampliada do neocolonialismo preconizado pelo governo Trump. Resistência e resiliência demonstradas por muitos desde a invasão europeia às terras brasileira e que muito contribuíram e continuam contribuindo para o Brasil ainda estar aqui e merecer presente e futuro melhores.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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