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Sextas Crônicas

Um bom coração é capaz de nos curar

O amor que cola corações partidos é o que senta ao lado mesmo sem saber o que dizer, ou passa horas ao telefone com você, mesmo quando você não sabe o que dizer

Públicado em 

03 abr 2026 às 02:30
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Fui ao cardiologista. Na verdade, o começo do outono é meu período predileto para um check-up caprichado, e incluo nisso tomar vacinas; sou fã de vacinas. Vou primeiro ao cardiologista, entre outras razões, porque meu coração é o paradeiro da minha alma e meu cardiologista sabe ler, para além dos exames, o meu coração. Ele é um amigo querido. Entre o som do eletrocardiograma e nossas conversas, eu sempre saio de lá com o coração mais leve.
Deve representar muito para um médico saber-se capaz de aliviar o coração de alguém. Desta vez, mais do que nas consultas anteriores, falamos muito sobre como preservar de dores desnecessárias os corações sensíveis, em cenários críticos para a humanidade, como guerras e conflitos de toda a natureza.
Nosso papo passou por música, cinema, comportamento, utopias e distopias, e ele me falou sobre a cardiomiopatia de Takotsubo. Conhece? É o que a medicina chama de síndrome do coração partido. Condição real, documentada, que imita o infarto; o coração entra em colapso sob estresse emocional intenso, afogado em adrenalina, e fica incapaz de se contrair como antes. A ciência mediu o que muita gente ainda acha que é frescura: a dor emocional tem endereço no peito. Tem nome. Tem código na CID. E mata.
Sintomas menos óbvios podem estar relacionados a problemas no coração (Imagem: FamStudio | Shutterstock)
Exames cardíacos Crédito: Imagem: FamStudio | Shutterstock
Há muitas razões para um coração partir-se ao ponto de não conseguir mais juntar seus cacos em um poético mosaico. O coração tem um limite. Não dá mesmo para permitir que tudo chegue ao nosso coração. São muitas as dores do mundo e as da gente.
Voltei da consulta-conversa ouvindo Coldplay. Adoro essa saudável mania de musicar meus pensamentos. Minha vida é toda musicada. Encontro respostas na arte que me toca. Desde aquele dia, estou com Will Try tocando minhas águas internas. Chorei mais neste período, é verdade. Chorei pelos meus lutos e pelos lutos de quem eu amo. Lembrei que Chris Martin fez essa música para consolar Gwyneth Paltrow após a morte do pai dela e deixei as lágrimas rolarem.
A música fala do que existe de mais profundamente amoroso em um ser humano: a intenção de colar os cacos de um coração partido. O refrão não promete cura, fala de tentativa, de intenção e de suporte. É emocionante pensar naquele amor, naquele momento de composição da música. A vantagem de ter um coração aberto às emoções dos outros é esta; deixar atos do amor alheio preencherem seu espírito.
A simples tentativa de alguém que te ama de verdade faz para reduzir a sua dor já é suficiente para que seu coração comece a se reorganizar. O amor que cola corações partidos é o que senta ao lado mesmo sem saber o que dizer, ou passa horas ao telefone com você, mesmo quando você não sabe o que dizer.
Quem se arrisca a ajudar ensina que coração não foi feito para armazenar dores até morrer petrificado. Nosso órgão mais pulsante, com sua inteligência própria, sabe que ajudar por amor é o ato mais revolucionário. Ainda que ter bom coração pareça fora de moda, eu acredito nesses humanos lançando o amor na pauta do futuro.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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