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Tributação

Imposto de Renda: entenda por que pagar 27,5% pode ser bom sinal

No fim, a equação é mais intuitiva do que parece. Não é o consumo que sustenta o crescimento. É o trabalho bem remunerado que sustenta o consumo

Públicado em 

31 mar 2026 às 04:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Ninguém gosta de pagar impostos. Ninguém gosta de pagar caro em produtos e serviços. Numa economia com inflação, moeda desvalorizada e carga tributária elevada, a vida do consumidor não é fácil. A cada mês, o salário perde poder de compra, enquanto a cesta de consumo só aumenta.
Mas também não somos exatamente generosos quando o assunto é pagar pelo trabalho alheio. Relutamos em pagar honorários de advogado, torcemos o nariz para a gorjeta no restaurante, pedimos consulta informal ao primo médico e ainda achamos normal solicitar ao amigo que traga um iPhone de fora, como se o favor não tivesse custo.
No contracheque, a sensação de peso é real. A tributação sobre o trabalho pode alcançar patamares elevados, somando contribuições previdenciárias, encargos e imposto de renda. Do outro lado, no consumo, os números também impressionam. Produtos essenciais carregam algo entre 7% e 20% de tributos. Bens de consumo geral podem chegar a 40%. A gasolina, não raro, se aproxima de 45% do preço final.
Diante desse cenário, a pergunta parece óbvia: a solução é reduzir tributos para baratear o consumo?
A lógica tradicional responde que sim. Preços mais baixos ampliam o acesso, aumentam a demanda e aquecem a economia. Uma sociedade que consome mais, sem se endividar, tende a ser vista como sinal de prosperidade. E, de fato, há mérito nisso.
Mas essa leitura é incompleta.
Uma agenda focada exclusivamente em desoneração tributária e flexibilização ampla das relações de trabalho pode até gerar alívio imediato e algum entusiasmo inicial. O problema é que esse impulso raramente se sustenta. Sem renda consistente, o consumo não se mantém. Sem consumo sustentado, o crescimento perde fôlego.
O ponto central é outro. Consumo não é causa, é consequência. Só consome quem tem renda. E renda não surge do nada, ela decorre do trabalho.
Quando o mercado de trabalho se fragiliza, quando há excesso de oferta de mão de obra ou redução de garantias mínimas, o efeito é previsível: rendimentos mais baixos. E, com eles, menor capacidade de consumo. O que parecia solução vira parte do problema. De que adianta baixo índice de desemprego, se o emprego não garante o mínimo existencial?
Declaração do Imposto de Renda, Receita Federal
Declaração do Imposto de Renda Crédito: Shutterstock
Por isso, uma política econômica que pretenda crescer de forma consistente precisa deslocar o foco. Em vez de olhar apenas para o consumidor, precisa olhar para quem sustenta o consumo: o trabalhador. Melhorar a qualidade dos empregos, elevar a produtividade e ampliar a renda não são objetivos paralelos, são o próprio motor do crescimento.
Nesse contexto, até a forma como enxergamos o imposto de renda merece revisão. Pagar 27,5% não é agradável. Mas alcançar essa faixa significa, antes de tudo, estar em um patamar elevado de renda. Não é exatamente um castigo, é um sinal de que o problema maior, o da baixa renda, ficou para trás.
Isso não elimina o debate sobre carga tributária, que é legítimo. Mas muda a hierarquia das prioridades. Reduzir impostos sem enfrentar a baixa produtividade e a precariedade do trabalho é atacar o sintoma, não a causa.
Formuladores de políticas públicas dispõem de instrumentos eficazes: investimentos em produtividade, incentivo à inovação organizacional e tecnológica, e uma regulação trabalhista que dialogue com essas transformações, podem elevar a renda de forma estrutural. E, ao fazê-lo, expandem o consumo de maneira sólida, não episódica.
Dani Rodrik, ao comentar Acemoglu, resume bem esse ponto: “Formuladores de políticas não precisam escolher entre uma economia voltada ao consumidor e outra voltada ao trabalhador. Políticas produtivistas que ampliem a voz do trabalhador e o fortaleçam por meio de inovações organizacionais e tecnológicas podem avançar nas duas frentes.” (Project-syndicate.org, 12.03.2026).
No fim, a equação é mais intuitiva do que parece. Não é o consumo que sustenta o crescimento. É o trabalho bem remunerado que sustenta o consumo. E é daí que a economia, de fato, ganha tração e o bem-estar social agradece.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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