Há não muito tempo, conduzimos um estudo para identificar alguns traços que caracterizam a atitude e o comportamento que observamos em nós mesmos, brasileiros — sem a menor pretensão de ser um trabalho com compromisso sociológico.
Em vez de nós respondermos sobre nós mesmos, ouvimos com atenção — e com metodologia adequada — a visão de cidadãos de outros países que decidiram viver aqui, ou seja, que adotaram este país. Procuramos entender quais pontos fortes e fracos eles identificam; o que é valorizado e gera adesão à nossa “marca”.
A técnica utilizada no estudo chama-se ZMET®, sigla de Zaltman Metaphor Elicitation Technique, uma metodologia desenvolvida por Gerald Zaltman, professor da Harvard Business School. O ZMET é uma metodologia licenciada no Brasil com exclusividade para a Troiano.
Zaltman reuniu conhecimentos de Antropologia, Sociologia e, principalmente, de Neurociência, com o objetivo de identificar os mais profundos conteúdos mentais e emocionais dos consumidores — para entender como eles pensam, sentem e agem em relação a uma marca ou tema específico.
Fugindo, como em muitas pesquisas, de um olhar apenas para a ponta visível do “iceberg”, mergulhando em conteúdos mentais não conscientes dos entrevistados, de forma não invasiva, por meio da exploração de metáforas visuais e verbais.
Para conduzir o estudo, envolvemos pessoas de diferentes idades e tempos de vida no Brasil. Elas tinham algo em comum: por diferentes razões, todas escolheram viver no país temporariamente ou, quem sabe, por toda a vida. Ou seja, decidimos falar com quem escolheu o Brasil como sua moradia.
Concluímos que elas tinham muita consciência de três pilares de nossa identidade nacional: o caráter afável, o hedonismo e a elasticidade das regras.
Esses três fatores são o elo entre o que a marca Brasil projeta de mais encantador e também suas maiores fraquezas — o eixo que nos faz pendular entre nossos lados luz e sombra.
É importante mencionar que diversos pensadores brasileiros já dialogaram profundamente sobre tais temas, que são fruto de séculos de constituição de nossa personalidade.
O caráter afável do brasileiro é um dos primeiros aspectos que vêm à tona ao se falar da vida no país. A experiência de viver aqui é diferente da de qualquer outro lugar no mundo, pela maneira muito particular com que o brasileiro sociabiliza. É isso que faz com que os estrangeiros estabeleçam intensos laços afetivos muito rapidamente, resultando em um sentimento de acolhimento e pertencimento por parte daqueles que aqui chegam.
Por outro lado, esse caráter também é visto sob a perspectiva de uma imensa dificuldade do brasileiro em dizer "não". Isso ocasiona, portanto, uma passividade em relação à vida, aos imensos dilemas sociais e políticos, à violência que marca a sociedade em muitas esferas e, em última instância, gera um sentimento de tristeza pela sensação de impotência que permanece e, de certa forma, é aceita pelos brasileiros.
Não distante desse caráter afável está o hedonismo do brasileiro, que encanta os estrangeiros pelo canal que abre para uma vida de mais prazer e mais graça — uma vida que permite pequenos escapes no dia a dia, sem hora marcada e com espaço para momentos de alegria absolutamente inusitados.
O outro lado da moeda do hedonismo é a percepção de que o país ainda está atrasado na busca pela eficiência e produtividade. Os entrevistados não escondem que essa “lentidão” nacional claramente redunda em uma grande frustração, pelo sentimento de que há um potencial que nunca se concretiza no Brasil. No entanto, para os estrangeiros que escolhem viver aqui, certamente esse é um lado que pesa menos do que a possibilidade de ter uma vida mais rica em termos afetivos e emocionais.
Outra consequência desse caráter hedonista é o terceiro pilar do paradoxo nacional: a elasticidade das regras. Uma vida mais prazerosa não poderia existir sem certa flexibilidade nos valores, nas leis e na rotina. Que tal passar uma tarde em Itapuã, como entoa a canção? (Toquinho, Vinicius de Moraes, Marília Medalha)
O Brasil é uma marca, por um lado, apaixonante, que alegra, enche as pessoas de energia vital e oferece uma vida livre do tédio. Mas que, na mesma medida, aterroriza e entristece pela insegurança, por toda a dificuldade de realização pessoal e coletiva.
Como questionar a passividade que impede o enfrentamento firme dos problemas sociais e políticos sem questionar o caráter afável dos brasileiros, que também torna o país tão único no olhar do resto do mundo? Ou a elasticidade das regras, que traz insegurança, mas, junto dela, um desejado sentido de aventura para a vida?
O paradoxo dessa nacionalidade parece um enigma quase insolúvel, porque está ancorado em aspectos essenciais do lado positivo da marca que foi construída e reforçada para o Brasil até hoje.
Parece que os verdadeiros “consumidores” da marca Brasil são aqueles que, como o russo Vladimir Maiakóvski, acreditam que é “melhor morrer de vodca do que de tédio”. Quem ama o Brasil de verdade ama a intensidade da vida — uma intensidade que apenas a força do paradoxo, da polaridade, proporciona.
Todos se recordam da expressão formulada por Antônio Carlos Jobim, comparando o que é viver em Nova York e o que é viver no Brasil. A rica síntese que a visão de um gênio como ele conseguiu criar para traduzir o paradoxo brasileiro: “Viver em Nova York é bom, mas é uma merda. Viver no Rio de Janeiro é uma merda, mas é bom.”
Muito mais do que a alegria, a diversidade e nossas belezas, é preciso explorar atributos que são resultado da síntese de nossas contradições e que tornam o Brasil realmente único: a intensidade, a pulsação, os altos e baixos — por fim, a vida em sua completude, com todas as possibilidades que ela oferece.