Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, os impactos da lama de rejeitos continuam avançando sobre o estuário do Rio Doce. Um estudo realizado pela engenheira agrônoma Amanda Duim Ferreira, em parceria com pesquisadores da USP (Esalq) e da Ufes, encontrou elevadas concentrações de metais pesados em alimentos cultivados nas áreas que foram tomadas pelo rejeito na região de Regência, em Linhares.
Como o estudo foi feito
A pesquisa analisou banana, mandioca e polpa de cacau produzidos em pequenas plantações de subsistência em ilhas formadas pela própria lama da barragem e em áreas alagadas pelo Rio Doce. As coletas foram feitas em agosto de 2021, mas fazem parte de um acompanhamento iniciado em 2015, logo após a chegada da lama ao Espírito Santo.
Segundo Amanda, o cenário é claro: “a cada estação de cheia, mais rejeito chega ao estuário”, aumentando as camadas depositadas nas margens do rio, que hoje chegam a ultrapassar 50 centímetros de acúmulo, muito acima do observado nos primeiros anos pós-rompimento, entre 5 a 10 centímetros.
As análises laboratoriais encontraram concentrações elevadas de cádmio, chumbo, cromo, níquel e cobre, além de ferro, manganês e alumínio, todos acima dos limites considerados seguros pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). A equipe também realizou uma avaliação de risco considerando idade, hábitos alimentares e frequência de consumo.
Risco maior para os mais novos
O alerta maior recai sobre as crianças: para elas, o risco associado ao consumo de banana cultivada nessas áreas foi considerado potencialmente significativo. Entre os adultos, o risco calculado ficou abaixo de 1, indicando menor impacto imediato, embora isso não signifique segurança total.
O resultado reforça uma conclusão apontada repetidamente pelos pesquisadores: falta monitoramento contínuo. “Nossa coleta foi suficiente para indicar um problema, mas não para afirmar que toda a banana de Regência está contaminada. Precisamos de avaliações do solo, da água e de outras culturas”, explicou Amanda durante entrevista à CBN Vitória.
O enfrentamento ainda é raso
Outro ponto crítico levantado pela pesquisadora é a ausência de ações de remediação. Embora haja grupos monitorando o avanço da contaminação, quase não existem iniciativas para reduzir os metais acumulados no ambiente. Uma das alternativas estudadas pela equipe é a fitorremediação, técnica que utiliza plantas que conseguem absorver os metais do solo. Nesse caso, a taboa, espécie comum em brejos capixabas, mostrou grande eficiência em acumular níquel, cromo, chumbo e cobre na raiz. “A solução está na natureza”, destacou Amanda.
Apesar da gravidade das descobertas, o cenário observado é de cultivos pequenos e voltados à subsistência, conduzidos por pescadores e moradores tradicionais da região. Alguns vendem o excedente, o que reforça a necessidade de acompanhamento por parte dos órgãos federais. “Não é não dar a banana para a criança, é o poder público começar a monitorar os solos dessas regiões.”, explicou a pesquisadora.
*Este conteúdo foi escrito por um aluno do 28º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob supervisão de Murilo Cuzzuol.