Do centro histórico de Vitória para os palcos cariocas e as telas do Brasil, a trajetória de Leandro Soares é daquelas que misturam memória afetiva, disciplina e um olhar inquieto sobre o mundo. Ator, dramaturgo e diretor, o capixaba vive um momento de maturidade na carreira, celebrando o sucesso da peça “A Coisa”, premiada no Festa Internacional de Teatro de Angra (FITA) 2025, e já de olho no lançamento de um novo longa com Glória Pires e Tony Ramos que promete movimentar o cinema nacional.
“Sou do Centro Histórico de Vitória, o lugar mais bonito da cidade”, conta, com orgulho. A infância, segundo ele, foi marcada por liberdade e imaginação, ingredientes que, mais tarde, se transformariam em matéria-prima para o teatro.
Minhas brincadeiras sempre passavam por ‘ser outro’. Um herói, um monstro, um personagem… Acho que já era uma forma intuitiva de entender papel e personagem. Minha mãe logo me colocou na aula de teatro
Essa vocação encontrou terreno fértil ainda na adolescência, dividida entre a escola, as aulas de teatro e uma rotina que revela bem o espírito da época: natação, curso de inglês e umas visitas estratégicas ao fliperama do Boulevard da Praia, na Reta da Penha. “Fazia tudo isso de ônibus ou a pé. Naquela época era muito comum fazer vários trajetos a pé", relembra.
O caminho profissional, no entanto, não foi imediato. Leandro chegou a cursar Direito na UERJ, no Rio de Janeiro, antes de mergulhar de vez nas artes cênicas. A virada veio com o projeto “Morando Sozinho”, no Multishow, uma experiência que ele define como fundamental para sua formação. “Ali eu me profissionalizei de verdade. Eu escrevia, protagonizava, participava de todas as escolhas criativas… foi tudo de uma vez.”
Desde então, o nome de Leandro passou a circular com força no audiovisual brasileiro. Criador de sucessos como “Vai Que Cola”, do Multishow, ele construiu uma carreira marcada pela versatilidade, transitando entre teatro, televisão e cinema. “É como se o teatro me renovasse para o audiovisual, e o audiovisual me fortalecesse para o teatro. Um alimenta o outro”, resume.
Agora, esse trânsito ganha novos capítulos com “A Coisa”, espetáculo que retorna ao Teatro Gláucio Gil, no Rio de Janeiro, após três temporadas de sucesso, cinco indicações e o Prêmio de Humor no FITA 2025. Dividida em três atos, a peça mergulha em uma comédia distópica que mistura absurdo, crítica e metalinguagem para refletir sobre o próprio fazer teatral e sobre a vida.
A dramaturgia, assinada por Leandro, nasceu de inquietações antigas. “Na faculdade, escrevi alguns textos meio malucos, que acabaram ficando na gaveta. Quando decidimos montar uma nova peça, resgatei esses materiais e percebi que eles ainda faziam sentido. Foi assim que ‘A Coisa’ nasceu”, explica.
No palco, ao lado de André Dale e George Sauma, ele propõe um olhar provocativo sobre temas contemporâneos como identidade, pós-verdade e a sensação de perda de sentido em tempos mediados pelas redes sociais. Mas, em meio ao caos, há também espaço para o afeto. “Por mais distópico que o mundo pareça, ainda somos movidos por presença, encontro”, aponta a proposta do espetáculo.
Apesar da consolidação no eixo Rio-São Paulo, Leandro não se desconecta das origens. Pelo contrário: ele reconhece o impacto direto do Espírito Santo na sua forma de criar. “A minha escrita ser considerada popular tem muito a ver com a minha vivência em Vitória. O centro sempre foi um grande arcabouço de personagens”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele revela um desejo antigo: se reconectar artisticamente com o estado. “Espero muito um dia filmar em Vitória, fazer uma série ou até montar uma peça inteira aí. Vejo a cultura capixaba crescendo e sendo cada vez mais valorizada”, diz.
E enquanto esse retorno não acontece, o capixaba segue expandindo fronteiras. Entre os próximos passos, está o aguardado longa “Se Eu Fosse Você 3”, em que assina o roteiro ao lado de nomes consagrados como Glória Pires e Tony Ramos no elenco. “É um desafio nobre e delicado. Mais do que escrever um roteiro, é revisitar uma das franquias mais amadas do cinema nacional, equilibrando tradição e frescor”, adianta.
Com os pés firmes na própria história e o olhar voltado para o que ainda pode construir, Leandro Soares segue como um desses artistas que carregam o lugar de onde vieram, não como ponto de partida, mas como parte essencial do caminho.