Ethel Maciel foi a primeira mulher a ser chefe da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), do Ministério da Saúde
Ethel Maciel foi a primeira mulher a ser chefe da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), do Ministério da Saúde. Crédito: Vitor Jubini

"Fica como legado a recuperação das coberturas vacinais", diz Ethel Maciel após deixar o Ministério da Saúde

Primeira mulher a ser chefe da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, a epidemiologista fala dos desafios no trabalho em Brasília, de machismo e do orgulho de sua trajetória na ciência

Tempo de leitura: 3min
Vitória
Publicado em 24/03/2025 às 09h15

Na tarde de quarta-feira que recebeu A GAZETA no departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ethel Maciel vestia calça preta, camisa branca de manga e sandália de salto. "Vou passar um batom para as fotos", disse rindo.

A enfermeira e professora tinha acabado de voltar à universidade após dois anos trabalhando em Brasília. A capixaba foi a primeira mulher a ser chefe da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), do Ministério da Saúde. Na sala de aula, foi recebida com uma festa organizada pelos seus alunos. Bolo de cenoura com chocolate, suco, coca cola e salgados. E a curiosidade sobre o trabalho realizado na capital federal. 

Não foi a primeira vez que ela esteve sob os holofotes. Ethel foi um dos principais nomes durante a pandemia do coronavírus. Dava entrevistas, fazia lives, tirava todas as dúvidas. "Eu repetia a mesma coisa sete, 10 vezes no mesmo dia", lembra. Mesmo assim não desistiu, foi até o fim. "Estudei a vida toda para esse momento", diz a epidemiologista especializada em doenças infecciosas.

No cargo federal, entre outros trabalhos feitos, viajou o Brasil para acompanhar a população afetada pelos desastres naturais, sobretudo com chuvas intensas, inundações e secas, que afetaram comunidades em estados como Maranhão, Acre, Amazonas e Rio Grande do Sul. Também representou o país no exterior em viagens para os Estados Unidos, Genebra, Arábia Saudita, entre outros. "Só não aceitei ir para Rússia".

Ethel fez mestrado, doutorado, pós-doutorado, tudo simultaneamente a criação dos seus três filhos. Estudou na universidade referência em epidemiologia no mundo - Hopkins University -, foi bolsista por produtividade no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e atualmente é presidente, num mandato de três anos, do Grupo Técnico Assessor da Organização Mundial de Saúde (OMS) relacionado a tuberculose.

"A gente reúne os maiores especialistas do mundo e definimos quais são as políticas que devem ser adotadas por todos os países. É o máximo que eu poderia esperar da minha carreira". Além das pesquisas e das aulas, ela volta a assinar a coluna em A GAZETA e a ser comentarista na CBN Vitória. 

Na conversa, falou das conquistas e dos desafios no Ministério da Saúde, do machismo ao acessar os lugares de poder e da ligação que recebeu do governador Renato Casagrande (PSB) após deixar o cargo.

Da vida pessoal, lembrou a importância do balé, admitiu exaustão durante a pandemia e contou da dificuldade de viver longe dos pais, do marido e dos filhos que ficaram em Vitória nos últimos dois anos. "Chegava a trabalhar mais de 15 horas por dia".

Uma semana após deixar o cargo, Ethel Leonor Noia Maciel conversou durante uma hora com A GAZETA e falou sobre a sua trajetória e o orgulho de ter participado da reconstrução do Sistema Único de Saúde (SUS). "Do ponto de vista de ser uma epidemiologista, eu cheguei no cargo mais alto do país. Eu cheguei lá". 

Você foi a primeira mulher a assumir a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde. Qual balanço você faz desses dois anos e dois meses?

A gente chegou naquele momento pós-pandemia em que havia uma destruição grande de programas já consolidados, como o Programa Nacional de Saúde e o Programa de AIDS. Não tinha, por exemplo, vacinas para a gente começar uma campanha do calendário regular das crianças de dois anos. Por isso, só conseguimos montar uma campanha no segundo semestre de 2023, tivemos que recompor todas as compras no primeiro semestre. Chegamos num ambiente de muita dificuldade, desse ponto de vista, de ações consolidadas. O trabalho inicial não foi de avançar, mas de recompor os programas que estavam desestruturados.

Onde você estava quando recebeu o convite para o cargo?

Estava em casa e recebi um telefonema no sábado de manhã, um pouco antes do Natal. E tudo aconteceu nesse dia. Recebi um telefonema da presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem falando da transição que estava acontecendo em Brasília. Ela me falou: "Seu nome está sendo colocado aqui. Você aceitaria?". Eu disse: "Para eu ir para Brasília, deixar a minha família e a casa, só se for para ser secretária de vigilância, não iria por outra coisa". Eu não pensei que fosse acontecer. Duas horas depois, a presidenta da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, me ligou e a gente conversou pela mesma razão. Por ser epidemiologista, aceitar a Secretaria de Vigilância é o maior cargo do país. Às 18 horas recebi a ligação da ministra Nísia Trindade me convidando. Eu fui indicada pelas associações científicas, o que é bom porque sou cientista.

Em algum momento você pensou em não aceitar?

Não pensei. Vi que era uma oportunidade única de estar na gestão da primeira ministra de saúde do Brasil,  que é uma pesquisadora muito reconhecida nacional e internacionalmente. E eu sendo a primeira secretária, numa gestão de reconstrução. Ela é uma pessoa que está na construção do SUS há muito tempo e que eu admirava muito. Acho que, poucas vezes na vida, você tem a oportunidade de estar nessa conjuntura de fatores, com alguém que você admira para dividir um trabalho de reconstrução para o seu país.

O que significa uma mulher ter ocupado esse cargo no Brasil, um país ainda machista?

Você sabe que fui reitora eleita dessa universidade e não fui nomeada exatamente por isso, numa situação bastante triste. Ter recebido esse convite e ter tido a oportunidade de fazer esse trabalho com ela, para mim, foi um pouco de justiça. Acho que as coisas não aconteceram naquele momento, mas aconteceram agora. Acho que é muito representativo e importante. Mas é uma situação muito difícil. Você vê, inclusive, nesses episódios da saída da ministra, quantos episódios de machismo. E durante todo o período que a gente esteve lá, como ela era retratada, as próprias cobranças, é muito diferente dos outros. Historicamente, mesmo aqueles que não sabiam nada, não foram tratados dessa forma, tudo com muito desrespeito.

Erroneamente, espera-se uma postura masculina para as mulheres que ocupam espaços de poder. A senhora transmite serenidade. Como lida com isso?

Eu lido bem. Concordo que espera-se essa postura, mas eu não sou assim. Acho que também é um pouco disso que a gente traz, do feminino, para os cargos de gestão. A gente tem outro olhar mais relacional, acho que do ponto de vista de gestão de pessoas, é muito mais distensionado. Tem essa diferença... Sou uma pessoa das relações. 

Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel foi um dos principais nomes durante a pandemia do coronavírus: "Estudei a vida toda para esse momento". Crédito: Vitor Jubini

Ethel Maciel

Enfermeira e epidemiologista

"São conquistas que a gente tem que reconhecer, não é simples você ser uma mulher e ocupar um cargo na alta gestão. Mas acho importante dizer para outras mulheres que é possível romper essas barreiras e que esses espaços também são para nós"

Após saber da sua saída do Ministério da Saúde, o governador Renato Casagrande te ligou. Você recebeu algum convite dele?

Sempre existiu muito respeito entre nós, até hoje. Ele me ligou quando foi divulgado o anúncio que eu tinha decidido sair com a ministra Nísia Trindade, para saber se eu estava voltando. Eu disse: 'Governador, eu não quero nada, quero voltar para o meu trabalho na universidade'. Foi uma conversa muito simpática e gentil da parte dele em me ligar e saber o que estava pensando.

Você chegou a ser eleita como reitora da Ufes para o quadriênio 2020-2024, mas teve a nomeação preterida pelo então presidente da República, Jair Bolsonaro. Você fica pensando no que poderia ter sido da sua vida e carreira? E como você lidou com isso?

Eu não fico pensando, foi muito difícil. Eu sofri muito, foram três dias de sofrimento, mas eu penso que tudo na vida tem uma razão. Claro que naquele momento, vivi uma injustiça e é muito duro lidar com ela, principalmente vendo várias pessoas que você confiava, que te traíram. Foi um misto de sentimentos muito ruins. E veio a pandemia e sou epidemiologista de doenças infecciosas. Quis o destino que três dias depois, eu recebesse uma ligação do então secretário de saúde para integrar a composição que o governador estava fazendo. Nesse momento eu fiquei pensando muito se aceitava o convite. Mas estudei a vida toda para isso, era o momento de ajudar. Tive essa oportunidade de assessorar diretamente o governador durante um período, conversei com ele no início e disse: 'eu sou uma pesquisadora, sou uma cientista, e a única coisa que eu tenho é o meu nome'.

Nesse tempo de governo federal, qual foi a maior conquista obtida desde que assumiu a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente ?

A gente ter reconquistado o certificado de país livre de sarampo, que é uma doença que mata e que estamos vendo o surto no Estados Unidos, então reconquistar foi muito trabalho. Reverter a curva de vacinação, que desde 2015 caía, e recuperar as coberturas vacinais. A gente ter lançado o primeiro e único programa no mundo focado na eliminação das doenças - como tuberculose, hanseníase, malária, doença de chagas - que têm uma forte determinação social, que já era minha linha de pesquisa. Todas essas populações que acabam tendo uma carga de doença maior pela situação que vivem, já eram algo que eu pesquisava e eu tive a oportunidade de fazer essa construção do Brasil Saudável, que visa a eliminação dessas doenças. E com isso incorporamos novos medicamentos contra a AIDS e a tuberculose, por exemplo.

Qual a importância desses remédios?

A gente tá falando de pessoas que tinham resistência a uma microbactéria resistente para tuberculose, onde o tratamento que era injetável, demorava de 18 a 24 meses, muito difícil. Conseguimos incorporar novos remédios, fazer isso em seis meses. É uma mudança enorme na vida da pessoa e uma conquista muito grande. Também conseguimos colocar o teste duo HIV-sífilis. A sífilis é uma doença que está aumentando e a gente consegue diagnosticar e intervir rápido.

Num vídeo de despedida publicado na sua rede social você fala da reconstrução do SUS. Talvez muita gente não sabe tudo o que foi feito...

Foram muitas coisas, muitas ações, não só nacionalmente, porque a gente também tinha que recuperar o Brasil internacionalmente, como o mundo via o país. Foram muitas viagens internacionais representando o ministério, reconstruindo essa confiança nas políticas públicas do Brasil que eram reconhecidas no exterior. Se a gente pensar no Programa de AIDS do Brasil, era uma referência. O programa de imunização também. Voltamos a falar da importância das mudanças climáticas no surgimento de novas doenças, conseguimos pactuar isso com lideranças mundiais. Criamos uma declaração relacionada às mudanças climáticas com esse foco na resistência antimicrobiana, que é uma das grandes ameaças globais. Conseguimos fazer uma declaração com as 20 maiores economias do mundo chegando num consenso de um plano de trabalho.

Houve um aumento na cobertura do calendário de vacinação, fruto do Movimento Nacional pela Vacinação...

Acredito que fica uma marca. Desde 2015, foram vários governos que essa cobertura vinha diminuindo. Fizemos uma estratégia chamada de microplanejamento, fomos em todos os estados e os municípios de referências, para entender o que cada lugar precisava e como ele usava o recurso. Alguns locais, por exemplo, ampliaram o horário de funcionamento da unidade de saúde. Cada um podia fazer o seu planejamento e utilizar aquele recurso da forma como se adequasse melhor. Isso foi fundamental para que a gente aumentasse a cobertura vacinal.

Ao mesmo tempo vocês tiveram que lidar com inúmeras notícias falsas em relação às vacinas...

Foi dificílimo. A gente lidou com essa questão do negacionismo, da desinformação, mas usamos uma estratégia, com pesquisadores que pudessem nos ajudar. São pesquisas que ainda estão sendo feitas, que vão nos ajudar a ver quem são os interlocutores, o que eles estão falando, como essas redes se articulam. Às vezes é uma notícia falsa que vai reverberando e sendo propagada. Não são várias notícias falsas, é uma que é a raiz do problema.

A trajetória de Ethel Maciel

Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES. Vitor Jubini
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel
Ethel Maciel. Acervo pessoal
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES. Vitor Jubini
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES. Vitor Jubini
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES. Vitor Jubini
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES. Vitor Jubini
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES
Ethel Maciel, enfermeira e pesquisadora da UFES

Ethel Maciel

Enfermeira e epidemiologista

"Criamos um plano de contingenciamento para lutar contra a desinformação"

Quais medidas foram feitas para que o Brasil voltasse a ser referência em imunização?

O Programa Nacional de Imunizações virou um departamento com várias coordenações para estruturar melhor. Incluímos novas vacinas no calendário, como por exemplo, a vacina contra a covid-19, que não estava no calendário. Ela foi incluída inclusive para as crianças, o que gera toda onda de desinformação. Incluímos outras vacinas, como a contra a dengue, sendo o primeiro país do mundo a incorporar no calendário do sistema público. Agora vamos incorporar a vacina do Instituto Butantan, contra a dengue, que é produzida aqui. Se a gente puder vacinar, principalmente os grupos mais vulneráveis, isso vai ter um impacto muito grande na mortalidade. Daqui a um tempo as pessoas não vão mais morrer disso.

Esse ano, o Brasil está na presidência das Nações Unidas para AIDS. Mas há dois anos vocês tiveram que reconstruir o programa..

O Programa de AIDS teve o nome mudado no governo passado, era o departamento de doenças crônicas, numa ideia de sumir mesmo o nome HIV/AIDS. As doenças têm nomes, é importante que as pessoas saibam disso. O Programa de AIDS não tinha uma campanha de prevenção há muito tempo, nos quatro anos anteriores não tinha campanhas preventivas. Estávamos vendo o aumento no número de casos, inclusive com a população jovem. Não tinha a compra e a distribuição, por exemplo, de lubrificantes, preservativos e seringas. Podemos dizer que o país voltou a ser referência no tratamento de pessoas vivendo com HIV. 

Há 5 anos vivemos a pandemia da covid-19. E em 2020 você trabalhava incansavelmente, dando entrevistas, fazendo lives, tentando esclarecer as dúvidas. Você foi um dos principais nomes no combate à doença. O que você traz de aprendizado desse período?

Passa um filme na minha cabeça. O maior aprendizado é a importância de termos lideranças que se guiem pelos conhecimentos científicos, porque a ciência não vai responder tudo, não vai ter todas soluções, mas temos a possibilidade de se guiar por algo que tenha uma base. Os países que se guiaram pela ciência foram melhores e protegeram mais as suas populações. Gosto de lembrar também que as pesquisas que guiaram a vacina de covid-19 tinham mais de 20 anos, demora para você construir o conhecimento científico. Por isso, é importante a gente ter essa continuidade do investimento na ciência e no conhecimento. As pesquisas continuam. O que vemos agora é uma medicina mais personalizada. Diversas pesquisas e vários laboratórios estão estudando uma vacina específica para a doença que a pessoa tem, algo direcionado, é o futuro que estamos pensando agora.

Você chegou a ficar exausta?

Muito! E agora novamente. Porque logo depois eu entrei no Ministério da Saúde, então não tive um tempo de descanso. Mas durante a pandemia teve uma questão diferente, o próprio isolamento, a forma como a gente deixou de ter as nossas relações sociais que são muito importantes para nossa sanidade. E no meu caso específico, às vezes, eu repetia a mesma coisa sete, 10 vezes no mesmo dia. Era uma exaustão, falando de uma coisa triste, uma coisa ruim. Era uma carga pesada.

Ethel Maciel

Enfermeira e epidemiologista

"Ensinar os novos estudantes o gosto da pela ciência é o que mais gosto de fazer"

Quais mulheres foram referência para a senhora?

Na universidade, eu sou do departamento de Enfermagem, e tive mulheres muito fortes, que me inspiraram e foram muito importantes para minha trajetória, que abriram caminhos,  já nas décadas de 1980 e 1990. As mulheres no Centro de Ciência da Saúde sempre tiveram mais títulos antes que os homens. Tive muitas mulheres inspiradoras do meu próprio departamento de Enfermagem. Eu nunca me limitei por ser mulher, sempre tive muita consciência que a gente está abrindo caminhos. Sou da primeira geração que criou o Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, abrindo caminho para quem veio depois. Também adoro escritoras, como a Clarice Lispector e a Nélida Piñon. Tem mulheres que são maravilhosas e inspiradoras, como a Fernanda Montenegro. 

Você é bailarina profissional. Ainda dança?

Não só na vida (risos). Mas eu pretendo voltar a dançar balé clássico. Venho de um setor de muitas mulheres fortes aqui no estado. Estudei com a Lenira Borges e a Mitz Martucci, mulheres que me inspiraram, que estavam lá fazendo e eram donas dos seus espaços, produziam os seus espetáculos, todas muito empoderadas. A dança está sempre comigo, e trago vários ensinamentos, como o equilíbrio e a leveza. De querer buscar a perfeição. 

E tem algo que quer muito fazer porque não conseguiu fazer últimos dois anos?

Quero ter a minha rotina de volta, poder ter uma alimentação e um sono saudável. Agora acho que retomo essa qualidade de vida. 

Qual o grande legado que a primeira mulher a ocupar a SVSA deixou?

A recuperação das coberturas vacinais, o certificado do país livre do sarampo, a recomposição do Programa da AIDS, o reconhecimento da importância do quesito raça e cor que mostra que as doenças não impactam da mesma forma, a liderança na pauta de resistência antimicrobiana e o retorno de algo que eu acho bastante importante, que é se guiar pela ciência em todas as ações. A gente reconstituiu todos os grupos técnicos, para que todas as políticas possam ser colocadas. E pela primeira vez, lançamos o Centro Nacional de Inteligência Epidemiológica e Genômica, que coloca o Brasil em outra posição. A gente começa a participar de uma rede internacional, para entender que vírus ou bactérias estão circulando no nosso país. 

Você fez mestrado, doutorado, pós- doutorado, tudo simultaneamente a criação dos seus três filhos. Estudou na universidade referência em epidemiologia no mundo - Hopkins University -, foi bolsista por produtividade no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e atualmente é presidente do Grupo Técnico Assessor da Organização Mundial de Saúde (OMS) relacionado a tuberculose. Falta acontecer alguma coisa na sua vida?

Do ponto de vista de ser uma epidemiologista, eu cheguei no cargo mais alto do país, cheguei lá. E saindo de uma universidade que, do ponto de vista de comparações, é um estado e uma universidade que não são referências. Sempre falo para os meus alunos: "Nos diversos fóruns que participo, quando o professor é da Universidade de São Paulo (USP), o que ele fala a partir dali já é diferente. Então o que eu preciso falar é muito mais para convencer aquela plateia". Eu cheguei lá, apesar de tudo, e me sinto muito feliz. E do ponto de vista da tuberculose, que é a minha área de pesquisa, comecei no ano passado, num mandato de três anos, a presidir o Grupo Técnico Assessor da Organização Mundial de Saúde. É o máximo que eu poderia esperar.

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