Apesar de ser ambientada na Inglaterra, a série "Adolescência", da Netflix, extrapolou fronteiras e é sucesso da plataforma em vários países, inclusive no Brasil. A distância geográfica não é um limite porque os temas abordados encontram identificação na sociedade contemporânea, que assiste — às vezes, passivamente — ao uso inadequado da internet como forma de estimular violências. E quando adolescentes estão imersos nesse universo, o resultado pode ser trágico, a exemplo do retratado nos quatro episódios do streaming. Ao trazer o debate para a realidade local, escolas do Espírito Santo mostram como encaram esses desafios.
Redes de ensino têm ações para o enfrentamento à violência no ambiente escolar, como a de gênero, explicitada na série. A misoginia, isto é, o ódio às mulheres tem encontrado espaço na internet e essa conduta reverbera fora das redes. Assim, é preciso adotar medidas educativas capazes de prevenir esse comportamento violento.
Andréa Guzzo Pereira, subsecretária de Estado da Educação Básica e Profissional, explica que o conceito de gênero e tudo o que está ligado à violência contra mulheres, como a misoginia, é tratado como um tema integrador da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e trabalhado de forma transversal, ou seja, deve ser discutido em todas as disciplinas. Entre outras abordagens, a proposta é promover o letramento de gênero, combater as diversas violências contra o público feminino e estabelecer a cultura de paz.
Além do que é proposto pelo currículo, Andréa Guzzo destaca que a rede estadual desenvolve outras ações, como o "Escolas Plurais", em parceria com o Núcleo Interinstitucional de Pesquisa em Gêneros e Sexualidades (Nupeges) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O projeto-piloto foi implementado em 2024 em 20 escolas.
O resultado dessa iniciativa, que envolveu a equipe pedagógica, foi a produção de um caderno metodológico com propostas de atividades para serem realizadas em sala de aula visando à prevenção da violência de gênero. Neste ano, um novo caderno será produzido, dando continuidade ao trabalho em mais unidades de ensino e ampliando a discussão em torno do tema.
Desde 2019, a rede estadual também dispõe do Apoie, um programa com psicólogos e assistentes sociais que atuam em todas as escolas do Estado. O atendimento não é exclusivo para tratar de violência de gênero, mas o tema está em pauta. As ações promovidas pelos profissionais atendem solicitações das unidades de ensino para, por exemplo, prevenir casos de bullying e outros comportamentos agressivos. No atendimento a alunos, a equipe acolhe, identifica as demandas e faz os encaminhamentos, quando necessário, para as redes de apoio, seja de saúde, seja de assistência.
No início, afirma Andréa Guzzo, havia uma demanda enorme, que estava represada, não tinha fluxo. Mas, atualmente, o Apoie tem tido uma relação com as escolas, principalmente, de parceria preventiva.
A Secretaria de Estado da Educação (Sedu) ainda tem outra parceria com a Ufes, por meio do programa Fordan, cujo foco é a cultura no enfrentamento às violências. Trata-se de uma ação de formação voltada para educadores que, entre outras habilidades, aprendem sobre acolhimento humanizado das mulheres, encaminhamento jurídico e psicológico. O trabalho é voltado para a Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A rede particular também tem uma preocupação em preparar sua equipe de colaboradores para identificar e prevenir situações de conflitos, como o bullying e outras práticas violentas. O presidente do Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Espírito Santo (Sinepe-ES), Moacir Lellis, diz que já foram promovidos três ciclos de capacitação de profissionais de escolas vinculadas à entidade desde o ano passado — o mais recente, agora em março.
Essa iniciativa é realizada em parceria com a PM, que designa a equipe ligada à Companhia Independente de Polícia Escolar (Cipe) para a formação. "A polícia está muito bem treinada para capacitar nossos colaboradores, inclusive com atividades práticas, simulando algum problema dentro da escola", pontua.
Para Moacir Lellis, a intenção é se antecipar a eventual conflito. "Temos que trabalhar no preventivo. A professora que está em sala de aula, se observa alguma reação diferente do aluno, do adolescente, precisa saber o que fazer."
Embora considere importante as escolas investirem na capacitação e outras ações, o presidente do Sinepe-ES faz questão de diferenciar o papel das unidades de ensino do que é atribuição dos pais.
Após assistir à série "Adolescência", a reflexão que Moacir Lellis fez e que, em sua opinião, vale para todos os cuidadores de crianças e adolescentes, se resume em três atitudes: mais diálogo familiar, conhecer os conteúdos acessados pelos pequenos e entender melhor a linguagem adotada por eles que, com a diferença geracional, muitas vezes deixa de ser compreensível.
O diálogo entre pais e filhos é o ponto-chave, na avaliação de Stéfani Martins Pereira, vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia (CRP). Ela diz que, quando se trata de acesso à internet, não basta só restringir, proibir. A criança e o adolescente precisam entender o porquê de determinadas medidas e, mais que isso, desenvolver o senso crítico, saber analisar, distinguir o certo do erro, o que faz bem e o que não faz. Esse aprendizado é gradativo e ocorre à medida que a família conversa, orienta sem julgamento, escutando também o que eles têm a dizer.
Stéfani Martins aponta que, mesmo com aplicativos de controle parental, não é tarefa difícil para muitos adolescentes, nativos digitais, burlar as restrições. Assim, reforça a psicóloga, é fundamental ter uma relação familiar de muita conversa para que os filhos sintam-se à vontade para falar, demonstrar seus interesses — dentro e fora das telas — e também seus medos e preocupações.
Ela afirma que a misoginia reproduzida na série "Adolescência" não é diferente da constatada em outros espaços.
A psicóloga ressalta ainda que, quando há diálogo em casa, eles conseguem fazer a análise do que é ruim e conversam sobre isso com os pais.
Para ela, tanto meninos quanto meninas são vulneráveis na internet para casos de violência, como o cyberbullying, mas as garotas acabam ficando mais expostas, do mesmo modo que na vida fora das redes as mulheres são mais suscetíveis a ataques violentos, apenas por sua condição feminina.
A doutora em Educação e psicóloga Bianca Orrico, da Safernet — organização que atua pela promoção do uso seguro e defesa dos direitos humanos na internet —, conta que, na pesquisa TIC Kids realizada no ano passado com um público de 9 a 17 anos, 29% dos 2.424 participantes no país reportaram ter se deparado com conteúdos que consideraram ofensivos, que não gostaram ou ficaram "chateados".
"É preciso pensar a internet na perspectiva de democratização de acesso, avanço tecnológico e benefícios que oferecem, mas é importante ficar atento aos riscos e desafios que podem surgir para esses públicos (crianças e adolescentes) e um dos principais é o acesso a conteúdos inapropriados e extremistas", frisa, acrescentando que, no ambiente virtual, há, entre outras violências, casos de cyberbullying e sextorsão — ameaça de divulgar imagens íntimas para obrigar a vítima a fazer algo que não deseja.
Bianca Orrico também destaca a importância do diálogo familiar, sobretudo após o retrocesso na moderação dos conteúdos das plataformas, como o definido pela Meta (dona do Facebook, Instragram, Threads e WhatsApp) no início do ano.
"Sem uma moderação mais ativa, principalmente nos conteúdos que violam os direitos humanos, que estimulam a violência contra a mulher, contra a população LGBTQIAPN+, por exemplo, os pais precisam dialogar mais, procurar entender a experiência dos filhos na internet, e falar sobre respeito e empatia nas redes."
Bianca Orrico adverte que muitos conteúdos que propagam o ódio e condutas violentas são impulsionados pelas plataformas digitais porque são extremamente lucrativos. E, quanto mais uma pessoa assiste, mais e mais vão surgindo na tela, incentivando a violência. Para piorar, a ausência de moderação, dificulta a remoção desses conteúdos.
Por isso a importância das conversas, mas a psicóloga da Safernet orienta para que não sejam muito prescritivas e moralistas, o que poderia acabar distanciando os filhos desse bate-papo.
A Safernet tem uma série de ações para tornar a internet um espaço mais seguro para todos. Uma das iniciativas é a disciplina "Cidadania Digital", que visa a apoiar escolas e, particularmente, os professores em sala aula para orientar alunos sobre o uso consciente do ambiente virtual. Há publicações com planos de aula que, segundo Bianca Orrico, seguem as diretrizes da BNCC.
O curso é gratuito e, conforme afirma a psicóloga, os interessados em trabalhar esse tema terão a oportunidade de discutir violência de gênero, discurso de ódio, contra-narrativas desses discursos, entre outros pontos, com turmas do fundamental II (6º ao 9º ano) e ensino médio.
Outra iniciativa é um serviço de orientação para casos de crimes e violações de direitos humanos na internet: o Canal de Ajuda. Quem busca o "helpline" recebe atendimento de profissionais especializados e é garantido o anonimato. Pela assistência, é possível fazer encaminhamentos, como boletim de ocorrência.
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