Dedicação e respeito à educação aliados a uma boa dose de química, física, matemática, biologia e investimentos pessoal e financeiro. Essa combinação tem sido a principal receita de sucesso ou de perspectivas favoráveis aos pesquisadores e cientistas que trabalham no enfrentamento do novo coronavírus no Espírito Santo.
Afinal, desde a descoberta do SARS-Cov-2, vírus que provoca a Covid-19, a ciência representa uma fonte de esperança. Responsável pelo desenvolvimento de tecnologias em múltiplos setores, é por meio dela que a humanidade espera vencer a guerra contra a doença.
E, no Estado, dezenas de iniciativas demonstram a capacidade técnica de profissionais das mais diversas áreas. Membros de universidades, institutos e empresas privadas concentram esforços em análises e no desenvolvimento de dispositivos que permitam que a sociedade encare o chamado novo normal.
Esterilizador de ar, câmara de luz que elimina o vírus, pulseira anti-Covid, estudo do sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2, teste sorológico que pode custar R$ 17, pesquisas de compostos para tratar e curar a doença são algumas das propostas criadas em solo capixaba.
Há ações que foram capitaneadas pelos atores que compõem a Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI). Criada em 2018, a MCI reúne esforços de empresas que integram a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), corpo acadêmico estadual e governo do Estado.
O professor doutor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e coordenador da MCI, Luciano Raizer, explicou que a primeira ação do grupo foi a Indústria do Bem, que angariou recursos, materiais ou quantia em dinheiro e destinou para o público necessário, de acordo com as necessidades sociais e carências do sistema público de saúde.
Ajudamos 10 hospitais com cerca de 50 mil equipamentos de proteção individual (EPIs) e ajudamos cinco mil famílias com alimentos, entre outras coisas. Identificamos que havia dificuldade de acessar EPIs, como máscaras e protetores faciais e, então, unimos esforços da Ufes, cerca de 10 indústrias, Findes, Senai, produzimos 150 mil protetores faciais e doamos ao governo do Estado, disse.
Para Raizer, o enfrentamento à pandemia representa uma oportunidade de visibilidade e reconhecimento da importância da ciência e da tecnologia desenvolvidas por pesquisadores, professores e pela indústria do Espírito Santo.
Para a pós-doutora em Epidemiologia e professora da Ufes, Ethel Maciel, o novo normal pode influenciar o surgimento de novas empresas e a oferta de novos serviços no mercado capixaba. Ela cita como exemplo a consultoria no ramo da biossegurança, sendo que as empresas deverão adotar protocolos de distanciamento social de higiene pessoal.
A produção científica capixaba cresceu muito nos últimos 10 anos. Ela é importante, além das novas descobertas, na aplicação de protocolos que podem movimentar a economia e dar oportunidades para novos talentos, como os jovens que estão se qualificando e que podem estar no mercado usando a ciência para benefício do Estado e da economia, opinou.
A partir do registro dos primeiros casos da doença na Grande Vitória, a Ufes iniciou frentes de trabalho. Umas das ações foi a criação do laboratório de manutenção de equipamentos hospitalares. O grupo já fez reparos em dezenas de ventiladores pulmonares, monitores e medidores que são usados no atendimento a pacientes com a Covid-19 em hospitais do Estado.
Outra medida foi a ampliação de produção do álcool glicerinado, destinado aos hospitais públicos e comunidades carentes. Para o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Valdemar Lacerda, a pandemia lançou luz à importância da produção acadêmica.
A rotina de chegar em casa e lavar toda a compra do supermercado, limpar as chaves, celular, bolsa e até os sapatos para evitar que o vírus entre no imóvel poderá ser substituída. Pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), do campus Cariacica, estão desenvolvendo uma câmara de esterilização do vírus.
Em vez de água e sabão ou álcool 70%, basta colocar o item no dispositivo de desinfecção por cerca de 10 a 15 minutos e então o produto estaria livre de contaminação por qualquer microrganismo, incluindo o vírus SARS-Cov,2, que provoca a Covid-19. A eliminação ocorreria por meio de radiação ultravioleta.
O projeto é coordenado pelo professor e doutor em Física, Filipe Leôncio Braga. Ele explicou que ideia inicial é produzir a câmara com três tamanhos diferentes. A proposta venceu um edital de fomento à pesquisa e aguarda a liberação do recurso para ser produzida e testada.
Leôncio explicou que não se trata de um estudo meramente acadêmico. O protótipo deverá ser concluído nos próximos três meses. Segundo ele, se produzido em larga escala, o modelo médio da câmara teria tamanho semelhante a de um forno elétrico ou micro-ondas. O valor no mercado deve girar em torno de R$ 200.
Uma das cláusulas deste edital que a gente participou determina que a tecnologia aplicada seja completamente reversível para poder ser produzida em larga escala em um pequeno intervalo de tempo e acessível tanto para a comunidade acadêmica quanto para o público em geral. Um dos requisitos é que todos os dispositivos têm que estar presentes no mercado brasileiro, informou.
Já para garantir o distanciamento social, integrantes do Programa de Educação Tutorial (PET) do curso de Engenharia da Computação da Ufes desenvolveram uma pulseira que emite alertas sonoros e visuais quando a distância mínima entre os portadores do dispositivo não é respeitada.
A ferramenta foi proposta pelo professor do Departamento de Informática e tutor do PET, Rodrigo Laiola Guimarães. Em um mês e meio, os alunos André Cunha e Joana Loureiro desenvolveram a pulseira, que deve custar menos de R$ 50, caso seja produzida em escala, de acordo com o professor.
Ainda dentro do campus da Ufes em Goiabeiras, em Vitória, o professor do Departamento de Morfologia da instituição e doutor em Biotecnologia, Jairo Oliveira, é o responsável pelo projeto que pode identificar, de forma mais rápida e precisa, se a pessoa já foi infectada. A proposta está baseada na produção de um teste sorológico que faz a detecção dos anticorpos, tanto o IgG como o IgM.
De acordo com Oliveira, diferente dos testes convencionais, o que muda são as moléculas de reconhecimento. O objetivo do grupo de pesquisadores é tornar o produto mais sensível. A estimativa é de que o resultado do teste fique pronto em até quatro minutos.
Para que aquela linha vermelha que os usuários observam possa ser visível a olho nu, são necessários cerca de 100 anticorpos do paciente para apresentar uma coloração visível. Há uma necessidade grande de partículas marcadas. Nosso modelo vai demandar menos, ressaltou.
Com o avanço nas pesquisas, o novo teste sorológico pode significar uma diminuição drástica nos valores dos testes em relação aos que já existem no mercado, encontrados a preços médios entre R$ 150 e R$ 250. O método capixaba está avaliado entre R$ 13 e R$ 17.
O material coletado do paciente é depositado num substrato de vidro e seco para ser levado no espectrômetro para verificar o espalhamento raman de superfície. Após a construção do substrato, com apenas 20 microlitros do soro do paciente, sob a lâmina de vidro, será possível realizar a leitura, explicou.
A tendência de estabilização da doença no Estado tem permitido a retomada de atividades comerciais e a flexibilização de atividades comerciais. Os escritórios, academias e os serviços considerados essenciais já registram aumento de atividades e de interação social. Nessa perspectiva, uma empresa capixaba criou o reciclador e esterilizador que promete eliminar o coronavírus disperso no ar.
Segundo o gerente de negócios da Intechno, Claudemir Malacarne, a tecnologia foi desenvolvida na Serra. Ele explicou que o equipamento capta o ar, que recebe uma radiação ultravioleta, e devolve ao ambiente. O produto tem capacidade de desinfecção de até 150m³ de ar por hora. O preço de mercado ainda está sendo estruturado pela empresa desenvolvedora.
É um esterilizador que pode ser instalado em salas comerciais, salas de aula, hospital e ônibus. Ele consegue esterilizar 100% o vírus da Covid-19 e pode ter modelos que funcionam em áreas de 100 até 300m³. Nossos testes já comprovaram que ele não emite radiação nociva ao ser humano e que é eficaz contra o vírus, garantiu.
Já na corrida em direção ao encontro de um medicamento eficiente contra o coronavírus, o Espírito Santo tem ao menos um grupo de representantes. Professores e alunos estudam potenciais fármacos que podem servir para o desenvolvimento de medicamentos que eliminam o vírus. O estudos já sugerem que a vitamina D, por exemplo, pode ser eficiente.
Coordenado pelo pós-doutor em Glicobiologia e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) Arlan da Silva Gonçalves, o grupo desenvolve um planejamento por modelagem molecular de inibidores do SARS-Cov-2 e tem como alvo molecular a enzima que mantém vivo o vírus responsável pela Covid-19.
Modelagem molecular são simulações químicas e biológicas no computador. É claro que por trás dessas simulações existem anos de contribuições. Por exemplo: existe uma base matemática muito robusta, muito elaborada, que seria a adição de informações moleculares necessárias para o funcionamento do computador para que os resultados das simulações batessem com os resultados experimentais.
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