"Nos últimos dois anos, a missão de paz foi no Sudão do Sul. Agora a vida está seguindo e estou pronta para a próxima!". O recado é de Lorena Lima Daleprane, cabo da Polícia Militar do Espírito Santo que retornou no dia 21 de junho deste ano de uma experiência no país, localizado no Norte do continente africano. Ela foi a primeira militar capixaba a embarcar para uma missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU).
Moradora de Vitória, a cabo partiu para o desafio em setembro de 2019 e, durante esses quase dois anos, escreveu um capítulo de sua história de voluntariado no país mais novo do mundo. No Sudão do Sul, ela presenciou situações que lhe marcaram, que vão da miséria vivida pela população local aos casamentos arranjados — em que pais entregam filhas a homens mais velhos em troca de cabeças de gado.
A policial militar, que prefere ser chamada de Dale (referência ao último sobrenome), conta que foi selecionada pela ONU ainda em 2018, depois de um longo processo seletivo — que contou com teste de proficiência em inglês e provas de direção e de tiro. Após aprovação, a única capixaba selecionada foi para o Sudão do Sul atuar na polícia da Organização das Nações Unidas.
"Nessa prova, fiz os testes de habilidade de inglês — audição, fala, entendimento — e, depois, fiz o teste de direção, porque quem vai ser missionário lá e trabalhará como policial precisa saber dirigir. Depois, fizemos o teste de tiro, mas minha missão nem era armada. Resumindo: fui para trabalhar com a polícia da ONU, com a bandeira do Brasil e representando a Polícia Militar do Estado do Espírito Santo", diz.
Segundo Dale, ela fez um curso introdutório em Juba, capital de Sudão do Sul. Em seguida, foi direcionada para Bentiu, cidade que concentra o maior campo de tutelados da ONU — com cerca de 130 mil pessoas — onde trabalhou na patrulha da polícia das Nações Unidas. Depois, a capixaba voltou para Juba, onde ficou por um ano e três meses de missão, período restante da missão.
"Bentiu é a cidade com o maior POC (Protection of Civilians Camp) do mundo, como chamamos o campo de tutelados da ONU. Comecei a trabalhar na patrulha e, depois, na polícia comunitária. Quando eu tinha seis meses de missão, fui para o Centro de Operações Conjuntas, um local que alimenta as missões com informações. Lá, eu era o elo da polícia com esse setor e tinha que saber o que estava acontecendo. Tinha que manter o relacionamento vivo com o pessoal dos outros setores e também com as autoridades locais e com a comunidade, para saber o que estava acontecendo, já que em um lugar como esse a qualquer momento pode eclodir algo", explica.
Para ela, poder explorar um país com tantas dificuldades e participar ativamente da comunidade local foi como descobrir um mundo paralelo.
Além dos desafios de lidar com uma população extremamente pobre em um país marcado por diversos conflitos internos, Dale destaca também o clima local. A cabo da PMES diz que, no Sudão do Sul, predominam dois climas: um extremamente seco e outro muito chuvoso.
"São duas estações no ano: uma é a estação seca, seca mesmo! Clima desértico, alimentado pelo deserto do Saara. É muito calor de dia e, à noite, muito frio E tem a estação chuvosa que, no caso de Bentiu, era muito severa. Ou você anda a pé de bota de borracha, ou de helicóptero. Tinha dia que o carro não andava", acrescenta.
Um grande choque cultural observado pela Lorena Daleprane foi a forma como as mulheres são tratadas no Sudão do Sul. Ela relata que se assustou com os casamentos no país: a maioria deles é arranjado e as noivas são vendidas ainda muito jovens em troca de cabeças de gado. A policial militar explica que a área onde ela trabalhava lhe permitia ter acesso a muitos relatórios, que apontavam vários comportamentos que eram padrões em relação à mulher no país, mesmo com 64 etnias diferentes habitando o Sudão do Sul.
"A etnia majoritária em Bentiu é Nuer, mas são 64 etnias no país inteiro. Como trabalhei em um local que me dava uma visão ampla da missão, pelo tipo de relatório que eu lia, pude perceber que é mais ou menos a mesma coisa em todos os lugares essa relação com a mulher. Lá, o casamento arranjado é uma coisa corriqueira. O pai entrega sua filha para o pretendente e recebe gado em troca, normalmente, entre 30 e 50 cabeças de gado. Muitas vezes, era uma menina de 13 anos e a família passando por momentos difíceis, aí entregam a adolescente para uma pessoa que tinha idade para ser pai dela. Às vezes, a menina tem que largar a escola para se casar. Isso me causou uma sensação horrorosa", afirma.
Por trabalhar na polícia comunitária, Dale tinha liberdade para transitar na comunidade. Sobre os dois anos que passou no Sudão do Sul, a cabo conta que uma de suas histórias preferidas é de quando ela visitou uma escola em Juba. Os uniformes dos missionários da ONU possuem a bandeira do seu país de origem e a militar se surpreendeu ao perceber o que significava carregar a bandeira do Brasil.
"Cheguei em uma escola que era completamente sem estrutura, ainda tinha cômodos de pau-a-pique, dois cômodos melhores e quatro bem capengas, com telhado ruim e os banheiros com fossa. O diretor chegou, viu no meu braço a bandeira do Brasil e ficou animado, veio com um bandeirão do Brasil. Todo mundo me abordava por essa questão do futebol e falava: ‘Ronaldo, Ronaldinho, Marcelo’. Fiquei muito feliz e surpresa quando descobri o que tinha por trás daquela bandeira", relembra.
Dale afirma que sua relação com o voluntariado começou na adolescência, quando ela tinha 16 anos. Atualmente, ela ministra aulas de evangelização para crianças no bairro Gurigica, em Vitória, mas disse estar sempre engajada com questões sociais. Para a cabo da PM, há muitas formas de ajudar ao próximo de maneira voluntária e ela se classifica como "mais uma para somar".
"Hoje, o voluntariado tem mais visibilidade. Além dessa questão de evangelização, tem grupos de animais carentes, tem gente que se engaja para limpar mangue, limpar praia, que ajuda pessoas em situação de rua... Sou mais uma para somar".
Lorena Daleprane conta que, quando saiu do Brasil, foi com o pensamento de que era apenas uma peça na engrenagem para tentar ajudar a alcançar a paz mundial. Após a experiência de dois anos no Sudão do Sul, ela percebeu haver mais a ser feito e pontua que animação para ajudar não lhe falta.
"Dediquei 21 meses da minha vida ao Sudão do Sul. Mergulhei nessa aventura profundamente, eu diria até que de forma romântica. E fez toda a diferença na minha vida, foi incrível. Entendi que isso inspira as pessoas, que acende a vontade de participar de alguma forma também. Cada um tem a sua missão de paz diária, missão de paz é quando você se dedicar a um bem maior. Nos últimos dois anos, minha missão de paz foi no Sudão do Sul. Agora a vida está seguindo e estou pronta para a próxima!", finalizou.
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