A Polícia Civil do Espírito Santo concluiu a investigação e indiciou o médico ginecologista Gedison Luis Gonçalves, suspeito de abusar de pacientes durante consultas em São Mateus, no Norte do Espírito Santo. Preso desde o dia 6 de agosto, em meio à investigação, o ginecologista vai ser autuado por violação mediante fraude. A pena é de 2 a 6 anos de prisão, mas, considerando que são múltiplas vítimas, pode ser aumentada.
A polícia divulgou nesta sexta-feira (13) que, por enquanto, trabalha com pelo menos 15 vítimas, sendo cinco grávidas, mas considera que o número de mulheres abusadas pode ser maior. O médico nega os crimes.
Segundo a titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de São Mateus, delegada Gabriela Zaché dos Santos, o primeiro relato de abuso é do ano de 2019. A polícia apurou até agora que a vítima mais nova tinha 21 anos na época dos fatos. De acordo com a delegada, as três primeiras denúncias levaram ao pedido de prisão preventiva do médico. Em seguida, surgiram mais denúncias semelhantes.
"Há um mês a gente recebeu a primeira denúncia de uma paciente desse médico que, durante o exame ginecológico, teria abusado dela. A partir daí, nós começamos a investigar se teriam outras pacientes que tinham relatos de que isso já poderia ter acontecido. A gente conseguiu mais duas vítimas e, a partir desses três primeiro relatos, a gente pediu a prisão preventiva. Depois dessa prisão dele, que foi veiculada na imprensa, chegaram mais 12 vítimas com o mesmo relato", contou.
"Quando surgiram as três primeiras vítimas, ele disse que fez o atendimento normalmente. Depois, quando surgiram as outras 12, ele permaneceu calado nos depoimentos. Ele utilizava do fato de ser médico e, durante o exame ginecológico, praticava o crime. Muitas da vítimas chegavam a ficar em dúvida se estavam sendo abusadas ou se aquilo era um exame mesmo. Não houve penetração, mas em duas vítimas ele chegou a colocar a boca", relatou. Todos os casos investigados até o momento aconteceram no município de São Mateus.
De acordo com o delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, o médico tinha uma forma de agir com as pacientes, colocando-as em uma situação de vulnerabilidade. Arruda contou que o suspeito falava para as vítimas que elas possuíam alguma lesão na região genital e que o orgasmo poderia ajudar a curar.
"Ele falava 'você está com um carocinho aqui, mas se você fizer uma estimulação, se você conhecer o ponto g, pode ajudar. Vou te ensinar o ponto g'. Quer dizer, ele coloca a vítima em uma situação de vulnerabilidade", detalhou.
Gabriela Zaché disse que a primeira vítima foi incentivada pelo namorado a fazer a denúncia. Segundo a delegada, após uma consulta, essa mulher relatou ao companheiro o que havia acontecido e ele a levou até a delegacia de polícia. Ela contou também que os abusos aconteciam apenas em consultas nas quais as mulheres iam sozinhas.
"O pensamento delas era que, por estarem sozinhas, ninguém ia acreditar nelas por se tratar de um médico. O que encorajou essa primeira mulher a ir denunciar foi ela estar em um novo relacionamento. O namorado dela foi buscá-la após a sua consulta, viu que ela estava estanha. Ela conversou com ele e ele disse 'vamos para a delegacia agora'. Ela mesma, não queria ir, a partir do momento que ela recebeu esse apoio, se encorajou", argumentou.
O superintendente de Polícia Regional Norte, delegado João Francisco Filho destacou a importância das denúncias das vítimas. "Queremos frisar a importância das vítimas denunciarem e procurarem a Polícia Civil. Não ficaremos inertes a essa situação. Os casos serão analisados e essas pessoas serão presas e punidas. Independente da circunstância, a vítima deve procurar a delegacia", completou.
Uma das vítimas que procurou a delegacia também relatou o abuso à repórter Rosi Bredofw, da TV Gazeta Norte.
Na ocasião da prisão, o advogado constituído pelo médico, Glauber dos Santos Silva, disse que a prisão "ocorreu de forma precipitada e sem qualquer fundamento legal que a justifique".
" A [prisão] deu-se única e exclusivamente com base em apenas depoimentos pessoais, sem a existência de qualquer tipo de prova pericial que comprove ou justifique-a. O médico há 18 anos não possui qualquer ato na sua vida pregressa que macule a sua conduta, seja na esfera pessoal ou profissional, afirma ainda ser inverídico as acusações a si impostas, o que será esclarecido. Importante dizer que o caso em tela trata-se apenas de Inquérito Policial e não existe nenhuma acusação formal em desfavor do acusado, e por se tratar de caso em que foi decretado o sigilo judicial não há como trazer maiores informações para não prejudicar o andamento das investigações. Em havendo a formulação de uma denuncia por parte do Ministério Público a defesa adotara as medidas cabíveis para provar a inocência do acusado", informou, por meio de nota.
Dias depois, 9 de agosto, o profissional deixou o caso. No dia seguinte, o advogado Homero Mafra informou que foi procurado pela família do médico para assumir a defesa, mas que não se posicionaria ainda sem ter conhecimento do caso e que ia se inteirar sobre o processo. Procurada pela reportagem nesta sexta-feira (13), a defesa informou que não tinha o que declarar.
O Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES) informou que vai abrir sindicância para apurar os fatos. "No momento, o Conselho está levantado informações sobre as denúncias veiculadas na imprensa, já que, até o momento, não recebeu denúncia formal contra o médico denunciado por assédio", diz a nota enviada pelo órgão.
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