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Os misteriosos desaparecimentos que assustam moradores de uma pequena ilha do Caribe

Os misteriosos desaparecimentos que assustam moradores de uma pequena ilha do Caribe

Em Antígua, dezenas de pessoas sumiram sem deixar rastros, deixando várias perguntas sem respostas entre seus parentes.

Publicado em 31 de março de 2025 às 05:44

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Imagem BBC Brasil
Hyacinth Gage, de 74 anos, desapareceu seis anos atrás. (Cortesia de Patricia Joseph)

Gemma Handy

A pior parte é a tortura mental, diz Patricia Joseph. Os "momentos angustiantes" de imaginar quais foram os últimos instantes de sua mãe. O estado infinito de incerteza.

Seis anos após o misterioso desaparecimento de sua mãe, Patricia ainda se pega procurando pela capa de chuva com forro laranja que Hyacinth Gage, de 74 anos, usava no dia em que sumiu, na esperança de que possa conter alguma pista.

Tragicamente, Hyacinth é apenas uma entre um número cada vez maior de pessoas que desapareceram sem deixar rastros na pequena ilha de Antígua — que, junto a Barbuda, forma um país-arquipélago no Caribe.

Alguns chamam o problema de epidemia; outros, de crise. Somente nos últimos dois anos, pelo menos nove pessoas desapareceram.

Aquele dia, em maio de 2019, começou de forma comum. Hyacinth, descrita como enérgica e independente, foi a uma consulta de rotina no hospital público, mas nunca voltou para casa. Desde então, nunca mais foi vista.

Imagem BBC Brasil
Patricia Joseph diz que não saber o que aconteceu é muito angustiante . (Gemma Handy)

Isso desencadeou uma série de buscas infrutíferas por toda a ilha e apelos desesperados por ajuda.

"Nos tornamos detetives. Minha irmã e eu nos unimos para buscar pistas. Voltei ao hospital para fazer perguntas", lembra Patricia.

Ela conseguiu verificar que sua mãe havia realizado os exames de sangue programados, mas não compareceu ao eletrocardiograma.

Outras investigações revelaram que, aparentemente, Hyacinth entregou sua bolsa para que outro paciente tomasse conta, mas nunca voltou. A bolsa foi encontrada pela equipe de segurança no dia seguinte.

A família também conseguiu localizar um motorista que afirmou ter dado carona a Hyacinth até um local perto do hospital.

"A polícia ficou com raiva de nós por investigarmos e nos mandou parar", lembra Patricia. "Depois, começaram a se irritar com nossas perguntas constantes, então, no fim, tivemos que recuar e apenas rezar."

Os aniversários são especialmente dolorosos: 6 de março teria sido o 80º aniversário de Hyacinth, um marco para o qual a família havia planejado uma grande comemoração. Em vez disso, Patricia tirou folga do trabalho para passar o dia em uma reflexão silenciosa.

Imagem BBC Brasil
Família de Hyacinth tinha planos de comemora seu 80º aniversário. (Gemma Handy)

O número de pessoas desaparecidas em Antígua parece ser desproporcionalmente alto em comparação com as ilhas vizinhas, diz Patricia – uma percepção apoiada por fontes em várias dessas ilhas que falaram com a BBC.

O pequeno tamanho de Antígua – apenas 280 quilômetros quadrados, com menos de 100 mil habitantes (menor do que muitas cidades do interior do Brasil) – torna esse fenômeno particularmente intrigante.

As teorias

As especulações são muitas. As teorias vão desde o banal – a falta de vontade para investigar por parte de uma polícia mal remunerada e com poucos recursos – até o sinistro.

"Outras ilhas eventualmente encontram corpos", diz Patricia. "Minha mente fica fritando tentando imaginar o que aconteceu. Algumas pessoas falam de tráfico de órgãos. Já pensei até em atividades de gangues. Será que isso faz parte de algum ritual de iniciação?"

O desaparecimento de uma menina de nove anos em 12 de março abalou a nação e deu início a buscas intensas. O corpo de Chantel Crump foi encontrado dois dias depois, em um caso que gerou indignação pública e protestos – além de alimentar ainda mais os rumores. Uma mulher foi acusada do assassinato de Chantel.

O comandante interino da Polícia de Antígua, Everton Jeffers, reconhece que há "margem para melhorias" na comunicação da polícia com o público, mas rejeita a ideia de que a corporação seja indiferente.

Ele também afirma que mantém a mente aberta sobre as razões para o alto número de desaparecimentos, incluindo a possibilidade de um esquema de tráfico de órgãos operando na ilha.

"Isso é algo que temos ouvido e que vamos investigar. Não há evidências que sustentem essa hipótese, mas é muito importante não descartarmos nada", explica.

Patricia encontrou algum conforto ao se conectar com outras famílias de pessoas desaparecidas e agora planeja criar um grupo de ação para solicitar ajuda internacional.

"Isso não é mais algo aleatório, isso é sério, é uma crise", conclui.

Imagem BBC Brasil
O turista russo-canadense Roman Mussabekov sumiu em Antígua em maio de 2017. (Cortesia de Marina Bezborodova)

Aaron* reuniu uma lista com quase 60 pessoas desaparecidas em Antígua – mais de um terço apenas na última década – e acredita que o número real seja ainda maior.

Os homens representam cerca de dois terços dos desaparecidos, com idades que variam de adolescentes a idosos na casa dos 70 anos.

"Eu vivi essa dor pessoalmente. Um dos meus familiares desapareceu e outro foi assassinado", diz ele, falando sob anonimato devido a ameaças que afirma ter recebido por expor o problema.

"As famílias estão sofrendo. Muitas pessoas morreram sem nunca ver justiça para seus entes queridos."

"Embora alguns possam ter desaparecido devido ao envolvimento em atividades criminosas, há uma preocupação crescente de que um esquema organizado de tráfico de órgãos possa estar operando nos bastidores", acrescenta Aaron.

A polícia afirma que está reunindo dados oficiais sobre desaparecidos das últimas duas décadas, mas, até o momento da publicação desta reportagem, não havia fornecido nenhuma estatística.

Este ano já registrou mais dois casos.

No final de janeiro, Orden David não voltou para casa depois de uma noite em um cassino local. Seu carro incendiado foi encontrado, mas poucas outras pistas surgiram.

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Carro de Orden David foi encontrado, mas nenhum sinal de seu paradeiro. (Cortesia de ECADE)

Alline Henry lembra de Orden como seu "melhor amigo há 23 anos".

"A pior parte é não saber se ele está sendo mantido em algum lugar contra a vontade", diz Alline.

"Alguém está abusando dele, torturando-o? Todos os dias minha mente dispara para os piores cenários. Se, Deus me livre, for o pior cenário possível, precisamos de um desfecho", acrescenta.

Orden, de 39 anos, é amplamente conhecido em Antígua como uma das principais figuras em um caso histórico de 2022 que derrubou a legislação que criminalizava atos homossexuais.

"Não consigo explicar o quanto dói saber que, em vez de focarem no fato de que ele está desaparecido, algumas pessoas preferem focar no fato de que ele era gay", diz Alline.

"Acredito que o caso pode tê-lo transformado em um alvo", completa a amiga, com tristeza.

Com vastas áreas de mata e o oceano ao redor, a aparente facilidade de ocultar um corpo em Antígua pode, em parte, explicar a falta de respostas que tantas famílias enfrentam.

Imagem BBC Brasil
Uma mata densa ocupa parte da ilha, o que pode dificultar a busca por desaparecidos . (Gemma Handy)

"Está claro que a polícia local não consegue resolver esses desaparecimentos. Eles precisam trazer ajuda de fora. Quantas pessoas mais precisam desaparecer antes que façam algo? Quem será o próximo?", acrescenta Alline.

Keon Richards, de 38 anos, funcionário do programa nacional de merenda escolar, foi visto pela última vez saindo do trabalho em 26 de fevereiro. Sua mãe, Dian Clarke, diz que está "tentando se manter otimista", mas desabafa: "Você ouve falar de pessoas desaparecendo no noticiário e, de repente, isso acontece com você".

Com exceção de uma mulher de 43 anos, todos os desaparecidos sem deixar rastros nos últimos dois anos são homens, com idades entre 18 e 76 anos.

A falta de um laboratório forense local dificulta as investigações, já que amostras de DNA precisam ser enviadas para o exterior, causando longos atrasos nos resultados.

O diretor de Serviços Forenses, Michael Murrell, disse à BBC que um novo laboratório, capaz de analisar vestígios como cabelo, sangue e sêmen, entrará em operação nos próximos meses. No entanto, admite que as análises de DNA ainda estão distantes devido à falta de recursos financeiros.

A modernização da tecnologia não poderia chegar em melhor hora para alguns.

Kevorn Bailey, de 26 anos, desapareceu após receber uma ligação de um número desconhecido e sair de casa para encontrar alguém, em agosto de 2022.

Seu pai, Gregory Bailey, afirma que a empresa de telecomunicações forneceu à polícia o nome do dono do número há muito tempo, mas "até agora, a polícia não consegue me dizer quem era".

Sua frustração e desespero são evidentes.

"É como se uma parte de mim estivesse faltando. Algumas pessoas falam em ter um desfecho, mas eu não conseguiria lidar com a visão dele em um caixão; prefiro imaginá-lo vivo", diz ele.

"É emocionalmente desgastante lidar com a polícia. Se eu não ligar, não recebo notícias; se ligo, só ouço palavras vazias", acrescenta. "Quero que o governo saiba que as pessoas estão sofrendo; não sei se eles entendem isso'

"Coloquei cartazes de desaparecido por toda parte, mas não consegui colocar perto de casa; não suportaria. É a experiência mais dolorosa da minha vida", diz o pai.

Gregory acredita que o alto número de desaparecimentos está ligado à impunidade com que facções criminosas cometem assassinatos.

Aaron também reuniu uma lista com mais de 100 homicídios não solucionados.

"As pessoas não confiam na polícia; a corrupção é desenfreada na aplicação da lei", afirma Gregory.

Aaron concorda: "Já houve casos em que criminosos retaliaram contra as famílias das vítimas após denúncias".

O chefe de polícia, Jeffers, reconhece que "nenhuma força policial no mundo é perfeita", mas garante que "90% de nossos agentes são bons".

Ele também admite que a falta de recursos financeiros dificulta as investigações.

"Não há força policial no Caribe que tenha recursos suficientes para fazer tudo o que precisa ser feito."

"Fazemos muito para procurar pessoas, seguimos pistas e investigamos o máximo possível. Mas, quando não há pistas, não podemos simplesmente ficar andando em círculos. Precisamos do apoio do público tanto quanto possível", acrescenta.

O governo reconheceu a urgência da situação e prometeu uma série de novas medidas, incluindo a criação de uma força-tarefa dedicada a casos de desaparecimento e a aquisição de cães treinados para detectar cadáveres.

Se isso será suficiente para acalmar aqueles que aguardam desesperadamente por respostas, ainda é incerto.

"É hora de agir de verdade", alerta Patricia. "Espero que isso não aconteça com alguém próximo a eles antes que decidam olhar com seriedade para esses desaparecimentos."

* O nome foi trocado a pedido do entrevistado

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